O Lugar Sagrado da Imagem Medieval: “imagem-objeto” e site specificity

cv50

Black Book of Hours 15th Century – Pierpont Morgan Library, New York, M. 493. Ao se falar em contexto de imagens medievais a materialidade, seus sentidos rituais e econômicos não estão desvinculado do que a imagem pode ser.

 

Rodrigo Hipólito[1]

Fabiana Pedroni[2]

Versión en español

 

Resumo: Através do cruzamento do sentido de “imagem-objeto”, utilizado por Jérôme Baschet, com o conceito de site specificity, trabalhado pela crítica de arte Miwon Kwon, propomos um olhar sobre a imagem medieval como realização contextualmente singular e finita. Ao concordarmos com Jean-Claude Schmitt e Jean Wirth a respeito da amplidão semântica do termo medieval imago, o qual abarcaria as imagens materiais (imagines), o imaginário (imaginatio) e a antropologia e teologia cristãs (ad imaginem Dei), a potência objetual e a materialidade tornam-se elementos indispensáveis para a análise. Dentro dessa perspectiva, elementos ornamentais, condições de uso, acesso, situações de conservação e mesmo de localização devem ser considerados na observação de documentos imagéticos. Como produção sensível aos deslocamentos contextuais e como detentora de possibilidades representativa a imagem medieval apresenta características próprias de um site specific, ou seja, a imagem encontra-se originalmente imersa em um contexto que a faz ser o que é, ou o que era, em caso de sua descontextualização. Tal enfoque permite tanto uma delimitação mais nítida entre documento histórico e item cultural quanto uma maior preocupação com a preservação das estruturas que alicerçam uma imagem no corpo do documento.

Palavras-chave: imagem-objeto, site specific, ornamental.

 

 

A imagem há muito deixou de ser objeto exclusivo dos historiadores da arte. Seu campo de atuação alargou-se de tal maneira que falar de “estudo da imagem” pode ser tão vago quanto à tentativa de uma definição única do termo. Não poderíamos unir, em apenas um escopo de utilização, objetos figurados, imagens mentais e figuras de linguagem. Cada qual exige seu lugar, seu contexto de estudo e atuação. E mesmo com classificações mais extensas ainda necessitaríamos de especificidades.

Para alguns autores, como Jean-Claude Schmitt (1996) e Jean Wirth (1989), a imagem medieval comporta-se bem sob o termo imago, que aparece com certa freqüência nos documentos medievais.[3] A imago ultrapassa um caráter puro de representação e alcança três domínios: o das imagens materiais (imagines), do imaginário (imaginatio) e o da antropologia e teologia cristãs (fundadas numa concepção do homem criado ad imaginem Dei e prometido à salvação pela Encarnação do Cristo, imago patris). A imago exerce função mediadora entre os homens e o divino, pertencendo mais à ordem visual e do indício que à ordem da representação: “A imagem medieval se impõe como uma aparição, entra no visível, torna-se sensível” (SCHMITT, 2007, p. 16).[4]

Ao tomar a imagem apenas como representação, negligenciar-se-ia sua dimensão de objeto, seu caráter de uso, assim como não se consideraria a materialidade da imagem como elemento sensível. Por esse motivo, Jérôme Baschet (2008) se refere às imagens medievais como “imagens-objeto”, a fim de frisar, por um lado, a materialidade da imagem, e, por outro, seus usos e funções, notadamente de caráter litúrgico e devocional, aderentes ao objeto. Considera-se ainda que o status de tal objeto pode ser determinado a partir do valor econômico e simbólico dos materiais empregados e de suas propriedades estéticas.[5]

 

[…] on propose la notion d’image-objet, afin de souligner que l’image est inséparable de la matérialité de son support, mais aussi de son existence comme objet, agi et agissant, dans des lieus et des situations spécifiques, et impliqué dans la dynamique des rapports sociaux et des relations avec le monde surnaturel.  (BASCHET, 2008, p.33-34)[6]

 

Podemos citar, como um exemplo significativo de “imagem-objeto”, aquela que contém relíquias, ou seja, um objeto material que carrega fragmentos do corpo de um santo, o que caracteriza sua virtus. A presença material da virtus legitima a imagem (relicário) como operadora de milagres, e a imagem por meio de sua materialidade confere legitimidade às relíquias. Esse é um diálogo que passa pela vivacidade da matéria. Como diz Schmitt (2007, p. 291):

 

As pedras, o ouro, o cristal não são matérias inertes: o reflexo, os efeitos da cor, a transparência, as veias que cortam a ametista ou a ágata, e parecem imitar as cores do sangue e as estrias da carne humana, dão a essas matérias aparência de vida.

Dentro dessa perspectiva, todos os elementos que compõem as imagens medievais devem ser analisados como essenciais para seu funcionamento. O lugar da imagem medieval, seu lugar sagrado, supera de diversos modos a conotação de espaço físico.

Com a ideia de “imagem-objeto” entende-se que a imagem medieval encontra seu lugar no rito, no gesto, na imaginatio (sonho, visão, imagem mental). Embora tal afirmação possa assumir tons de “definição total”, este não é o caso. Não nos interessa cristalizar a imagem e torná-la inerte em uma só extensa definição-atuação.

A imagem vive, no tempo de um ritual, no espaço de um claustro, na oração do fiel. Ela se modifica com a passagem do tempo, não apenas materialmente, em seu desgaste, mas em sua função e poder.

Diante disso, mostra-se claramente a necessidade de se repensar os métodos de análise das imagens medievais ao nos afastarmo-nos do legado da História da Arte dita tradicional e formalista. Nesse caminho, nos aproximarmos de conceitos como “imagem-objeto” e nos aprofundamos em novas possibilidades de construção e análise teóricas.

O primeiro passo talvez seja a compreensão da imagem como algo inscrito num “lugar” e o “lugar” como contexto sempre específico e em relação de interdependência com outros contextos (lugares). Como em um poema, onde as expressões e sons adquirem significado pelas suas relações com os versos e sons circundantes, em culturas iminentemente imagéticas a estrutura na qual se inscreve a imagem deve funcionar de modo adequado, isto é, de modo decente.[7]

A palavra função torna-se fundamental para a melhor compreensão do “lugar sagrado” da imagem. Deslocalizada ou descontextualizada para o olhar, a imagem surge como uma expressão inapropriada, como uma piada mal contada. Os elementos que compõem a “esfera significativa” da imagem (ornamentos, ordenação, arquitetura, materialidade, autoria, pertinência político-religiosa, conservação museológica, dentre outros) devem ser considerados como determinantes, mas também como determinados. Pensar um conjunto de iluminuras como uma quantidade de peças visuais aplicadas é como afirmar um conjunto de órgãos que funcione sem um organismo. Como Jean-Claude Schmitt (2007, p. 41) afirma, “[…] a obra verdadeiramente significante era a série em sua totalidade: o isolamento de uma imagem será sempre arbitrário e incorreto”.

Falamos então de imagem como coisa construída e alicerçada “junto a” atributos materiais e conceituais, os quais determinam a existência da imagem e para os quais a imagem surge também como atributo. Tal caracterização pode ser sintetizada no termo site-specific. É certo que tal termo tornou-se corriqueiro na teoria da arte como referência a práticas iniciadas na década de 1960.[8] No entanto, não se trata de uma categoria e sim de uma espécie de procedimento mais geral, como um conceito que auxilia na apreensão de modos de agir e pensar (KWON, 2002, p. 166). Como ferramenta, o conceito de site-specific indica a necessidade do contexto para a construção de proposições (BARRETO, 2008, p. 80).

Novamente, é necessário abandonar as noções nostálgicas de site, atreladas a qualquer totalidade física ou empírica que se possa aplicar ao place. (KWON, 2008, p. 182). O entendimento do site como a reunião de certos elementos relacionados, de modo a existirem significativamente, nos indica condições de leitura de documentos imagéticos não como uma totalidade captável e interpretável, mais sim como formas passíveis de serem experimentadas transitivamente. Podemos dizer que o site presente no termo site-specific “textualiza espaços e espacializa discursos” (KWON, 2008, p. 172-173).

Pela observação das práticas vinculadas ao termo site-specific nas últimas quatro décadas a crítica de arte Miwon Kwon sublinha três paradigmas bastante elucidativos sobre a expansão dessa expressão: fenomenológico, social/institucional e discursivo. [9] Tais paradigmas, os quais distinguem a forma de apreensão do espaço paisagístico e arquitetônico, a localização político-institucional e as estratégias comunicacionais como situações contextuais construídas, não designam qualquer espécie de cronologia. Por essa razão, ao falarmos da importância do site, tanto em relação à estrutura do documento e da imagem inscrita neste, quanto do universo político-cultural no qual o documento se inscreve, deve-se ressaltar o papel central dos métodos arqueológicos para delimitação e compreensão das funções da imagem. Entende-se assim que, o documento é uma “esfera significativa”, um campo contextual, no qual encontramos elementos funcionais organicamente integrados.

Talvez o próprio termo que aqui empregamos seja um site-specific, o que o faria depender de um contexto apropriado e gerar dependência nos elementos que formam tal contexto (BARRETO, 2007, p. 9). De todo o modo, mesmo ao se tratar dos trabalhos de arte que originaram o termo, ao atravessar circunstâncias impróprias, as estratégias de site-specific demonstraram suficiente manejo para manter o sentido primeiro das peças (KWON, 2008, p. 174). A possibilidade de deslocamento de uma proposição site-specific estaria submetida não ao seu deslocamento físico ou material, mas sim a sua tradução.

Traduzir as funções de uma proposição para permitir-lhe executá-las “junto a” atributos diversos daqueles com os quais partilhava de uma estrutura original é uma possibilidade inegável. Tal processo de tradução deve, ainda assim, promover-se com a consciência de que a proposição (imagem, documento, texto) não sobrevive como um órgão autossuficiente, mas necessita apropriar e ser apropriada. “A tradução poderia ser entendida, portanto, como uma leitura crítica.” (BARRETO, 2007, p. 9).

Guarda-se na fala de Barreto ideias importantes para o pensamento defendido nessas páginas. Nosso esforço constitui-se tanto em um primeiro passo para a tradução do sentido de site-specific para o âmbito do estudo das imagens no medievo (tradução que depende, num primeiro momento, do cruzamento com o conceito de “imagem-objeto”), quanto de um apontamento para a necessidade de encarar a imagem não apenas pelas lentes da simples hermenêutica, mas da tradução como “leitura crítica”. Apontamos aqui para o “lugar sagrado” da imagem medieval como uma ideia que extrapola o sentido imediato do inapreensível, vinculado ao Sagrado, e admite a site-specificity da imagem, isto é, sua localização inalienável, porém traduzível.

 

Referências

BARRETO, Jorge Menna. Lugares Moles. Dissertação de mestrado apresentada a Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (Orientação Dr.ª Ana Maria Tavares). São Paulo: USP, 2007.

_______. Consciência Contextual. In: Revista Urbânia 3, São Paulo: Editora Pressa, 2008, p. 79-94.

BASCHET, Jérôme. L’iconographie médiévale. Paris: Gallimard, 2008.

­­­­BONNE, Jean-Claude. De l’ornemental dans l’art médiéval (VIIè – XIIè siècle): Le modele insulaire. In: SCHMITT, Jean-Claude; BASCHET, Jérôme (orgs). L’image: Fonctions et usages des images dans l’Occident médiéval. Paris: Le Léopard d’Or, 1996. p. 207-249.

KAYE, Nick. Site-Specific Art: Performance, Place and Documentarion. Londres: Routledge, 2006.

KWON. Miwon. Um Lugar Após o Outro: Anotações sobre Site Specífic. In: Artes e Ensaios, Revista do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais: EBA UFRJ. Ano XV/n. 17, 2008, p.166-187.

_______. One Place after Another: site-specific art and locational identity. Massachusetts: MIT Press, 2002.

SCHMITT, Jean-Claude. La culture de l’imago. In: Annales. Histoire, Sciences Sociales. 51e année, N. 1, 1996. p. 3-36.

­­­­_______. O corpo das imagens: ensaios sobre a cultura visual na Idade Média. Bauru, SP: EDUSC, 2007.

WIRTH, Jean. L’image médiévale: Naissance et développements (VIe-XVe siècle). Paris: Méridiens Klincksieck, 1989.

 

*Artigo apresentado na XIV Jornadas Internacionales de Estudios Medievales da Sociedade Argentina de Estudios Medievales (SAEMED). Buenos Aires: Conicet/Saemed, 2014.

 

[1] Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. E-mail: objetoquadrado@gmail.com

[2] Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo. E-mail: fabianapedroni@yahoo.com.br

[3] SCHMITT, Jean-Claude. La culture de l’imago. In: Annales. Histoire, Sciences Sociales. 51e année, N. 1, 1996. p. 3-36.

[4] Sobre as imagens medievais e a imago, ver BONNE, Jean Claude. “À la recherche des images médiévales.” Annales ESC, mars-avril 1991, nº 2, pp. 353-373.

[5] Para maiores informações sobre as imagens medievais e a imago, ver o artigo de BONNE, Jean Claude. À la recherche des images médiévales. In : Annales Histoire, Sciences Sociales, 46e Année, No. 2 (Mar. – Apr., 1991), pp. 353-373.

[6] “Propomos a noção de imagem-objeto a fim de sublinhar que a imagem é inseparável da materialidade de seu suporte, mas também de sua existência como objeto, agiu e continua agindo, em lugares e situações específicas, e implicada na dinâmica das relações sociais e das relações com o mundo sobrenatural ”. (tradução nossa).

[7] Jean-Claude Bonne, ao tratar das imagens medievais, fala sobre a decência das imagens e sua conveniência a partir do termo em latim decet, em que o caráter estético se adequaria ao valor do objeto, sua importância e relação com o lugar que ocupa. Cf. Bonne, 1996.

[8] As muitas definições de site-specificity giram em torno da caracterização de uma dependência qualitativa contextual. Como afirma Nick Kaye: “Site-specificity, then, can be understood in terms of this process, while a ‘site-specific work’ might articulate and define itself through properties, qualities or meanings produced in specific relationships between an ‘object’ or ‘event’ and a position it occupies.” (KAYE, 2006, p. 2).  Note-se que uma definição generalista nesses moldes é providencial para o uso do conceito como uma ferramenta. Sem ignorar que o termo inicialmente abrigava os trabalhos dos artistas minimalistas da década de 1960 e posteriormente ganhou força com as polêmicas em torno da recepção de trabalhos de arte pública, notoriamente o caso do Tilted Arc (1981), de Richard Serra, entendemos que a tradução do termo para o campo histórico é não apenas possível, como bastante útil.

[9] Para uma descrição detalhada dos processos que geraram tais paradigmas, ver KWON, 2002, p. 11-32.

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