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Acordei meio febril. Toda quarta tenho sono, muito sono. Tento fazer as coisas do dia, mas meu corpo acha que é noite. Tentei explicar isso para o clínico geral quando quis um encaminhamento, já que ele não podia resolver o meu problema. Eu neguei que obviamente não era caso de psicólogo. “Acho que tenho um distúrbio químico ou alergia que me ataca só na quarta-feira, será que um alergologista poderia me ajudar?” Consegui o encaminhamento, mas não adiantou muito. O outro disse que podia ser caso de fazer um tratamento homeopático. Acredito que homeopatia e essências florais só funcionam para aqueles que acreditam e acreditar é para poucos. Ainda acredito mais na paranoia que na cura da minha paranoia por crença.

Daí acordo febril. Uma, duas, quantas vezes forem necessárias dormir e acordar num só dia; e na quinta-feira estou bem. Agora acordei pensando se havia relação entre um cachorro gigante na sala, um espirro e “O fêmur violar o tédio”. Talvez meu corpo pense que a quarta-feira seja o dia do tédio. Só que a vida não espera o tédio. Não há uma compreensão social que me permita dormir na quarta e não no domingo. “Desculpe, hoje não vou trabalhar porque tenho febre incurável na quarta e preciso dormir”.

Depois de muita resmungação social, tive que me consultar com um psicólogo. Resisti por muito tempo porque acredito no trabalho deles e não queria ocupá-los inutilmente. E foi mesmo inútil. Tem o que, oito anos? Eu disse que não era possível “aplicar” um tratamento quando não se sabe o que é, quando não se tem parâmetros. Virei um caso alienígena. Sem avanços, sem mudanças, sem nada, só sono na quarta. Chegou um momento em que eu acreditei, porque em uma quarta-feira tive menos sono, dormi só metade do dia! Se eu precisava querer, eu quis. Só que ficou por isso mesmo. Minha crença deu esperanças ao médico, mas isso foi há quatro anos. Hoje meu terapeuta diz que sente que está me extorquindo. Mas não é verdade, ele me ajudou muito. Com o alergologista aprendi a fazer tabelas incríveis. Anotei tudo que como, tudo que faço na semana, para encontrar variações que me façam dormir na quarta-feira. Não obtive muito sucesso, mas descobri que toda quinta gosto de comer lentilha. Comi na terça e também na quarta, mas não era ela que curava meu tédio. Seria estranho que fosse. Também fiquei fascinada com a estatística meteorológica correlacionada com a sombrinha na minha bolsa. Mais fascinada ainda fiquei quando fui para São Paulo e fiz chover na Cantareira só porque não tinha levado minha sombrinha. Parece piada, mas achei bem que era possível. Meu terapeuta me ajudou a pensar nas possibilidades. E é por isso que estou aqui. Resolvi contar minha história para o maior número de pessoas na esperança de encontrar parâmetros que ajudem num possível tratamento. Espero obter resposta de alguém que tenha os mesmo sintomas, mesmo que em dias diferentes (não sei se vale a depressão de domingo). Assim meu caso evoluiria de paranoia insistente para um caso de contaminação, alteração genética, sei lá. O importante é que ele entenda que em apenas um dia da semana (ou do mês, quem sabe) sentirá muito sono, invariavelmente precisará dormir o dia todo e que só acordará para comer e dormir novamente. Terá que compreender profundamente quando digo que este texto foi escrito com muita dificuldade, entre um sono e outro. Sentir a tristeza que é abdicar de um lanche da tarde e de uma janta para aproveitar os pouquíssimos minutos cientes de uma quarta-feira, que sinto, estão chegando ao fim.

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