Nem acima nem abaixo – dentro

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Parou diante da porta. Diferente de outros dias, observou-a por uma perspectiva de dentro da casa. Pensou que assim conseguiria alcançar a intimidade da madeira, vendo seu “lado interno”. Teve a leve impressão de que poderia descobrir o responsável pelos entalhes só de olhá-los, como se fosse uma grande genealogista de entalhes ornamentados em jacarandá. Era incrível que ainda existisse uma porta como aquela. Esperou alguns minutos, mas não obteve resposta. Sentiu-se ridícula por esperar que a porta respondesse sua pergunta: “de onde você veio?”, pensou. Mesmo assim, franziu a testa e esperou um pouco mais. Se existem pessoas que conversam com árvores, ela bem podia receber uma resposta, ou não, se considerasse que a árvore estava morta e esquartejada e não poderia ouvi-la mesmo que ousasse oralizar a pergunta.

Não era tão defensora da natureza assim. Achava que seria incongruente se fosse, porque via na morte uma perspectiva natural demais para preservar qualquer coisa. Pensar na sua incapacidade de conversar com a porta deixou-a aflita. Abriu a porta violentamente, como se a punisse pelo silêncio e saiu pelo jardim para pegar um pouco de ar da noite. Novamente alguém tinha invertido o tapete de Bem-vindo. Diferente de outros dias, sorriu. Pensou que poderia enfim ser bem-vinda para fora de casa. Começou a caminhar em direção ao banco, também de madeira, posto sob a árvore que seu pai tinha plantado quando ela ainda era uma menina. Uma árvore de pequeno ou médio porte (mas que para ela, uma senhora de pouco mais que um metro e meio, era de porte grande, quase colossal). Era um pouco maior que as suas irmãs de mesma espécie, talvez tenha crescido muito por ter mais espaço e por ter alguns animais de estimação enterrados perto de suas raízes. “Somos fermentos da terra”, era o que seu pai dizia enquanto enterrava o primeiro e único hamster da família. Ela sempre soube que era uma má ideia ter um rato em casa. Sempre achou que foi culpa do rato os outros animais, cães pequenos, cães grandes (cão gigante), gatos, coelho, peixes não terem sobrevivido. Tudo para alimentar o hamster sob a terra. Não sabia se era ironia ou não a árvore ser da espécie Senna Macranthera, conhecida como Aleluia. Pensou em tudo isso no curto espaço de tempo até alcançar o banco.

Virou-se de frente para a casa, para sentar-se no banco, e notou que algo estranho acontecia. Tinha medo que fosse o hamster. Era uma senhora de mais de 60 anos, mas ainda tinha alguns medos guardados desde a infância. Parecia que estava afundando, mas para cima. Não conseguia sentir o chão, sentia o banco abaixo de si, claro, estava sentada, mas não na grama. Olhou para baixo e não viu mais a terra. Levantou a cabeça e olhou de novo para a casa, fixando o olhar na porta de jacarandá. Ela ainda estava ali, só que muito maior. A casa também crescera. Franziu a testa e olhou para baixo de novo. Nada. Não que fosse o Nada, afinal havia algo, mesmo que uma infinita escuridão e ausência de grama, terra, chão, qualquer outro nome para a base que queria e que estava habituada a pisar. Apoiou as mãos no banco e jogou o corpo para frente, como criança que se balança em grandes cadeiras, para tentar ver o que sustentava o banco. Pernas, apenas pernas infinitas. Apenas. Franziu a testa mais um pouco. Ainda não estava satisfeita e não ia esperar por respostas de novo. Esticou o máximo que pode suas curtas pernas para baixo, para alcançar algo, qualquer base. Nada. Podia descer pelas pernas do banco, mas não teve confiança. Sabia de sua condição física, que na verdade nunca foi boa. Se na juventude era sedentária, agora era quase inválida. Exagero, mas não quis arriscar. Estava claro, apesar da ausência: “Chegou a hora, estou senil”.

Encolheu-se sobre o banco e esperou. O que mais podia fazer? Se sua senilidade afetava unicamente, ainda, sua capacidade de ver o que está abaixo dos pés, encolheu-se o máximo que pode, mas sem colocar os pés sobre o banco. Não queria ficar sem nenhuma base. Suas pernas começaram a inchar, esticou-se no banco, como adolescente relaxada que se joga sobre o sofá, assistindo filmes bobos, comendo comida boba e fingindo que a vida será eternamente boba. Não conseguiu não suspirar. Aquela sensação de bobice relaxou sua fronte e desfez algumas marcas na testa. Fechou os olhos por um momento, para sentir o vento. Como ele não veio, abriu os olhos e observou o céu. Era seu plano, mas estava tão preocupada com a ausência de tudo o que havia abaixo de seus pés, que nem percebera que o acima também estava ausente. Como era possível?! Começou a contar tudo o que podia ver, tudo o que deslocava sob seu olhar de foco em foco, afinal, não podemos ver dois objetos distantes de uma só vez. Olhou o banco e teve certeza de que ele estava ali. Olhou a Aleluia, desde o tronco, aos galhos, até as flores e folhas. Estava tudo ali. Voltou o olho rapidamente para o banco e para a Aleluia, como que somando elementos e reconfirmando a existência. A cerca ainda estava ali, isolando o jardim de algo que ela diria ser a vizinhança, mas podia não existir mais nada. As rosas e folhagens que beiravam a cerca formavam um caminho até a casa. Parte da escada não estava ali. Tinha certeza de existirem mais degraus. Contou várias vezes, mas começou a desconfiar da sua memória já que agora era senil. Contou quantas janelas, observou o telhado, a porta, os entalhes, mas sempre voltando do ponto de partida para reconfirmar a existência e permanência dos outros elementos. Então era isso. Ao que tudo indicava, faltava-lhe apenas o abaixo dos pés e o acima da copa da árvore. Parte do telhado havia sumido, porque estava muito acima. Apavorou-se quando percebeu que o sótão havia sumido. Ele e todas as tralhas que guardava desde criança. Não tinha ideia se poderia entrar na casa, caso conseguisse, e contar todos os objetos porque quando tentou visualizar, percebeu que nem sabia o que tinha em casa. Lembrava-se dos objetos mais importantes, mas não era possível que depois de tantas décadas na mesma casa, tudo coubesse numa única contagem mental. Senil ou não, era uma tarefa árdua demais. Enquanto pensava nesse depois das contagens, pensou no tempo que já estava ali fora. Ajeitou o corpo sobre o banco, postura ereta como seu marido sempre pedia – lembrou pela primeira vez com risos de sua frustração romântica. Como podia seu marido ter dito, em suas últimas palavras, em leito de morte, algo como aquilo? era inadmissível, foi naquele tempo, mas agora parecia uma frase carinhosa: “Postura.”. Simples assim. Era como deveria ser.

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Pan 0103

Simples. Talvez não fosse senilidade, pensou. Talvez só tenha esquecido algo que era simples. Manteve a postura mais ereta que nunca, com os pés voltados para baixo e o olhar fixo para frente, estendeu o braço direito para a base do banco e pegou uma rede pequenina, daquelas que nos filmes e desenhos animados são usadas para caçar borboletas, insetos, etc. Sacudiu a rede num movimento único e fez o que tinha que fazer ali desde o início. Pegou sua caça, inspirou-a e expirou lentamente. Levantou-se do banco centrada na certeza de que agora podia voltar para dentro da casa, revirar o tapete e preparar-se para deitar, sem que antes precisasse fazer uma lista.

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