A surpresa no final da linha

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Linha 4 amarela de metrô, São Paulo.

Origem: estação Luz

Destino: estação Butantã

Entro e ocupo o primeiro lugar vazio que encontro no metrô. Uma cadeira onde sentar é mais conforto que se pode pedir em meio a pessoas apressadas e em quantidade maior que a apropriada para o interior de caixas de metal em movimento. Levanto os olhos e observo que há muitas pessoas em pé, olho para o lado e começo a imaginar porque o lugar que ocupo estava vago. A meu lado um senhor de idade duvidosa, entre 30 e 50 anos, cerca de 1,75 m de altura, magro, barba rala, roupas velhas, calça com um leve rasgo… Poderia ser um morador de rua. Ele não fedia, então tudo bem. O cheiro rege a moral de uma metrópole. Não me importa a procedência, pode ser morador do Higienópolis, a Miss Universo, um anjo… se me agredir olfativamente, no mínimo eu me retiro.

Não parecia oferecer qualquer risco. Tendo a não desconfiar de pessoas que comem pipoca – não a caseira, nem a de carrinho de rua, mas aquela do pacote rosa, industrialmente docinha (e qual seria o problema com pessoas que comem das outras pipocas? pensem nisso…).

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pipoca 04

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O silêncio dura pouco. Come uma, duas pipocas e olha pra mim: “Estamos indo pra cima ou pra baixo do abismo?” – nem pensei muito para responder, “Para cima, eu espero”, e ri olhando pra ele. Voltei-me para frente e vi os rostos temerosos dos outros passageiros. Talvez pensassem que íamos para baixo. Mesmo que estivéssemos subindo para depois pular, ainda me parecia uma ideia mais reconfortante subir. Agora penso que provavelmente abaixo do abismo não existia pipocas.

Ele pareceu não acreditar em mim e se contorceu para alcançar com os olhos o painel eletrônico que marca o destino do trem (até hoje não entendendo a ideia paulista de metrô e de trem). “Está indo para o Butantã”. Não sabia se isso queria dizer que eu estava certa ou errada. Se pensarmos sobre a estação de origem LUZ, certamente eu estava errada.

Voltou a recostar-se na poltrona. A pipoca parecia gostosa. Minha visão periférica me é muito útil. Olhava sempre para frente observando ora a reação das pessoas de pé (deve ser bastante desagradável viver eternamente aprisionado no noticiário das 18h) e ora o senhor saboreando o que podia ser sua última refeição, caso estivéssemos descendo. Eu ainda não tinha jantado. Minha última refeição tinha sido há mais de 6 horas. Meu estômago roncou, mas o som foi abafado (ou se confundiu com) pelo trem/metrô.

“É lá que vou encontrar meu inimigo”. E mais uma, duas, tantas pipocas. Uma a uma recolhida do saquinho rosa brilhante, em intervalos cronometrados, perfeitamente espaçados. Achei por bem responder: “É mesmo?” – técnica aprendida com meu irmão que bem se adapta a conversas que você finge participar, em que não se escuta nada, só responde ou, no meu caso, para não contrariar alguém que tem um inimigo e que come pipoca da infância. Ah, que saudade dessa pipoca. Acho que eu tinha uns 10 anos quando fui com minha prima, que devia ter 6 anos, comprar em uma fábrica perto da casa dela um saco maior que a gente de pipocas, com dezenas de saquinhos de pipoca. Eu queria entrar e ver como funcionava a fábrica, mas um funcionário trouxe o saco até o portão. Queria tanto entender porque de hora em hora havia uma grande explosão, se era mesmo uma técnica que explodia milhares, talvez milhões, de grãos de milho em um momento único ou se era a coincidência estranha de um funcionário deixar cair algum carregamento de açúcar, porque o barulho parecia de sacos caindo de uma grande altura. Ambas as alternativas eram fascinantes

A última vez que comi dessas pipocas foi no supermercado, com minha mãe. Eu devia ter uns 25 anos. Nem tem tanto tempo assim… Naquele dia, decidimos que não íamos mais comprar, pois, por várias vezes seguidas, comprávamos para comer na volta pra casa e quando abríamos o saquinho  éramos atingidas pela decepção de memória murcha. Que raiva! Será que as pipocas de São Paulo não tinham murchado?

Olho para o lado, sem virar a cabeça, e percebo um movimento brusco. Ele tenta tirar algo do bolso esquerdo da calça (eu estava à direita dele). As pessoas se assustam e me deixam ansiosa. Será que alguém tentou sentar aqui e morreu? não… mas pode ter sido atacada. Que não seja um canivete, que não seja uma lixa, que não seja um objeto perfurocortante (amo vocês, atendentes da Gol!), que não seja um papel de propaganda… comecei a confabular sozinha. Se estava difícil de sair, podia ser algo grande – que não seja uma pedra, que não seja uma espada, que não seja uma colher (podia ser mais um saquinho de pipoca). Então decidi olha-lo diretamente, o homem, não o saquinho, sem a mediação dos olhos das pessoas de pé. Segundo estes, eu seria ali mesmo esquartejada e entregue em sacrifício ao Deus do Abismo Butantã.

Assim que completei 45 graus de rotação da cabeça, ele conseguiu retirar o objeto monstruoso – uma carteira. Só consegui olhar para o rapaz a minha frente, que parecia queimar por dentro de medo. e saiu um “Aish!” não tão alto quanto eu queria. “Veja, olha que moça linda”. Uma foto 3×4 toda amassadinha, com várias marcas de dobra. Teria tido tanta raiva do amor assim ou era um apego não desejado? “Sim, ela é muito linda”, disse sorrindo e olhando em seus olhos. E era mesmo. Cabelos castanhos ondulados, jogados sobre uma blusa vermelha. Compartilhei com ele aquele longo suspiro. Olhei para frente e ele me disse, voltando a comer sua pipoca e observando os reflexos no vidro da frente, “Viva bem”, pipoca, “Tem tanta coisa por aí”, pipoca, ” […] faz bem”, pipoca, “não dá […] imaginar […] ficar sem […]”, pipoca. As palavras dele começaram a sumir na medida em que abaixava o tom de voz (e eu não queria admitir que sou meio surda do ouvido esquerdo). Eu apenas continuei sorrindo e balancei afirmativamente quando ouvi “Não se preocupe […], a vida ensina, mas dá tudo certo”. E eu: “É verdade, vamos vivendo que descobrimos isso, por bem ou por mal”. Quando me ouviram incitando o Mal, uma senhora saiu as pressas de perto. E comecei a pensar na vida, na murcheza redundante da vida, que nem sempre é rosa; e o estômago roncou. “[…] feliz […] inimigo bem lá […] há uma surpresa no final da linha”.  Excepcionalmente, naquele dia, eu não estava indo para casa, ainda. A porta abriu na estação Paulista, me despedi “tchau”, fazendo também um sinal, com um sorriso e desci, com a ideia fixa de comprar um saquinho de  pipocas. O trem seguiu para seu destino, Butantã.

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