O homem das listras ou Quem sou eu…

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Quando criança, achava que tudo que tivesse curvas estava errado, ou, no mínimo, fora do lugar. Adorava retas. Jogo da velha? Seu jogo preferido, mas só jogava com o X, jamais usava o O. Números? Todas as combinações possíveis entre 1, 4 e 7. Seu maior pesar? Não ter ganho no tribunal a causa para trocar seu nome. Passara 10 anos, e ainda poderia passar mais 41 ou 77, que não entenderia por que o juiz não atendeu seu pedido. Era extremamente compreensível, segundo ele, que o nome Doug não era um nome que deveria ser usado. Nenhuma letra se salvava. Todas eram abomináveis. Era o que pensava todos os dias quando passava seu cartão na empresa: “piiii. bem-vindo sr. Doug”, que tristeza. E a moça ainda fazia questão de repetir ao menos 3 vezes ao dia, “Bom dia (boa tarde, boa noite) sr. Doug”. O que há de bom?! Foi o que tentou explicar ao juiz. Era inadmissível que um fazedor de listras renomado como ele, fosse assim representando, com tantas curvas. Que listrador teria curvas em seu nome? Era uma dor imensa. Preferia nem pensar em seu sobrenome para não aumentar o desgosto, e até porque não havia ainda uma lei na cidade de Línea que o permitisse essa mudança.

Quando estava em casa, sentia-se acolhido. Todos os móveis foram por ele listrados. Seu lar era seu maior cartão de visitas: em cerca de 174m² não havia se quer uma curva. Todos os móveis terminavam em quinas delicadamente trabalhadas em retas firmes e expressivas. As listras ao chão o ajudavam a caminhar sempre de modo reto e coerente. Nenhuma curva poderia ser aceita sem antes encontrar meios de endireitá-la. Acreditava que seu trabalho era um dos mais importantes, porque permitia que todos vissem com clareza uma cidade inundada de informações. Classificar, roteirizar, listrar. Era o básico para se viver.

Poucos ao seu redor pareciam compreender em profundidade essa função, mesmo em Línea. Foi lá que Doug conseguiu instituir uma nova profissão. Ser listrador era ter sua essência aprovada e querida (talvez não pelo juiz). Mesmo que fosse difícil para seus vizinhos, tentavam manter uma boa relação. Só havia um listrador na cidade e temiam que ele fosse realmente necessário. Até conversar com Doug era complicado, especialmente após o processo perdido. Dependendo da forma da letra, todo nome podia ter curvas. Doug preferia ser chamado de Tili, porque parecia ser mais reto, exceto quando escrito em letras cursivas. Ah, as letras cursivas… abomináveis! Mas a fala e a escrita eram necessárias para um mínimo de comunicação. E como ninguém em Línea aceitou a adoção do novo alfabeto proposto por Tili, ficaram assim mesmo, com certas exceções.

Apesar de alguns conflitos, na verdade,  muitos conflitos,[1] a vida de Tili era bem estável. Depois de classificar e listrar tudo o que conhecia, não era muito difícil seguir a linha. Após estabelecer-se profissionalmente, conhecer alguns arquitetos e designers que puderam ajudar com questões diárias (desenvolveu especial afeto por sua xícara quadrada), Tili deixou de se irritar tanto com as curvas alheias. Não iria, de modo algum, traçar diálogos com elas, então, não havia problemas com sua distante existência.

E parecia, de fato, mais um dia comum e claro para Tili. Voltava do trabalho tranquilamente. A pé, certamente, para evitar qualquer curva desnecessária. Ao se aproximar de sua casa, terminando de dobrar quadraticamente a última esquina, avistou um grande embrulho em sua porta. Tili deu um looongo suspiro de prazer ao ver um embrulho tão retangular e com listras tão bem delineadas e contrastantes em sua porta. Finalmente alguém o entendia tão bem quanto ele mesmo. Aproximou-se, tomou o embrulho e sentou-se na varanda. Não aguentou a ansiedade em descobrir novas listras dentro do embrulho. Trabalho árduo, controlar-se para não criar curvas na retirada do papel. Puxa, dobra, puxa, dobra, busca uma régua para auxiliá-lo. Pronto. Já via surgir uma linda quina azul. Um ângulo majestoso de 90º. Depois de exatos 17 minutos, descobriu um grande retângulo azul que emoldurava uma chapa de madeira. Achou estranho, poderia ser a moldura de um quadro, mas sem pintura. Resolveu virar o objeto. Quando começou a virá-lo teve taquicardia. Por um instante muito curto notou que quase escrevera sobre o corpo do objeto um ângulo de 45º ou até um ângulo menor, bem curvado. Parou e quis chorar. Como podia depois de anos ter feito uma bobagem dessas. Apenas deitou o objeto e respirou por um instante. Era difícil perceber um erro tão tolo que ele mesmo não cometeria nem quando era criança. Acreditava que, mesmo no berço, jamais teria rolado para o lado com medo de curvar-se demais.

Quando suas mãos pararam de tremer e o susto do ato quase consumado amenizou-se, tomou o objeto novamente e o virou, de modo a construir um C com quinas, ou um quadrado sem uma das faces. Parou por um instante, pois  não entendia o que estava diante de sua vista. Sem cartões, sem títulos, nem categorias. Suas mãos começaram a suar. A batida do coração tornou-se tão forte e nítida que o ensurdeceu. Não conseguia desviar o olhar, nem soltar o objeto, estava hipnotizado. Com certeza deve ter pensado que aquele ângulo errado era um mau presságio. E agora o que poderia fazer? Não era possível que assim ficasse, inerte, por mais tempo. Tão inerte que não respirava, não piscava, nada. Quando o ar abandonou os pulmões e sentiu-se fraco, o grande retângulo soltou-se. O estrondo o fez voltar a ouvir. Tudo estava quebrado. A varanda estava inundada de cacos que refletiam o teto. Depois de um longo tempo sentado, olhando o reflexo da madeira, compreendeu aquela perspectiva insistente e antes injustificável do juiz: ele realmente era Doug.

[1] O Instituto de Estudos Comportamentais de Línea desenvolve uma importante e inédita pesquisa que estabelece relações diretas entre a personalidade rabugenta de uma pessoa e o grau de exigência e rigidez diante de situações cômicas. Vários experimentos controlados laboratorialmente tem indicado, a princípio, que é possível, diante de uma situação extremamente cômica, manter-se apático e preso a detalhes que não se relacionam ao universo da comicidade. Dito de outro modo, é como um grande contador de piadas ter sua história e a expectativa certa de riso  ignoradas diante de um desarranjo assimétrico do cadarço de seu sapato. Todo o trabalho oral e teatral é anulado diante de uma inflexão visual.

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