Amabilidade Urbana e a cidade indesejada

Richard Serra, "Tilted Arc", 1981.

Richard Serra, “Tilted Arc”, 1981.

É estranho como a vida urbana jamais agrada aos especialistas. Os leigos se incomodam, mas como não são pagos para torcer a mente em resoluções eficientes, se refugiam em plataformas virtuais dispersivas ou gastam o fim de semana na árdua tarefa de tostar ao sol. Talvez a irritação mais justa esteja no acadêmico orgulhoso, incapaz de dosar o compromisso político da praça com o verdadeiro desejo por carros com ar-condicionado. As contradições do cenário urbano são espinhosas e escorregadias o bastante para serem atiradas ao limbo irrevogável da Sociologia.

Tocar a superfície ácida das teorias sobre urbanidade é um risco enfrentado por poucos. Propor saídas para suas contradições é ainda mais raro. Eis o grande mérito de “Intervenções Temporárias, Marcas Permanentes”, livro da arquiteta Adriana Sansão Fontes (Casa da Palavra, 2013): tentar um entendimento.

A autora pensa nos resquícios semânticos deixados nos espaços públicos por intervenções passageiras. Tais usos eventuais não se reduzem, aqui, ao artístico, mas estende-se para toda atividade de caráter não-permanente, não-cotidiano e não-comercial. De fato, a quebra de rotinas funcionais, a simultaneidade de modos de uso, o predomínio de conteúdos permutáveis e o individualismo de massa são características que tornam o “temporário” atrativo ao habitante da metrópole.

A preferência de Fontes pela intervenção temporária na análise das transições dos valores de convívio é não apenas cabível, mas aparenta ser um modo seguro de verificar possibilidades de cuidar da saúde comunitária na gambiarra metropolitana. No entanto, suas escolhas partem sempre do negativo, o que resulta no embate com problemas idealizados. A exclusão das ações cotidianas surge com o argumento pouco consistente de que nelas não existiria ruptura espaço-temporal para a relação intervenção-intenção transformadora. Pôr o cotidiano para escanteio é ignorar o sujeito citadino multiatarefado que existe em várias camadas, constantemente em fricção. Pensar intervenções em uma praça não é mais possível sem considerar conexões em rede e circulação de documentos de fonte inidentificável. Com celular em mãos, ruas em obra, greves e arte de rua, o cotidiano é todo transitório.

A autora move-se na “escala comunicativa” de Milton Santos. Isso tenciona o espaço mais para o seu uso que para sua projeção. Tal definição, aliada ao espaço coletivo de Solá-Morales, como lugar em que “a vida coletiva se desenvolve, representa e recorda, e que podem ser públicos e privados ao mesmo tempo”, confluiria com o objetivo de pensar a qualidade do espaço público. O esforço de planejamento se daria a partir da observação dos usos de espaços já determinados, para então conceber situações eventuais que abram margem para uma “amabilidade urbana”.

A metrópole está atada a programas funcionais que impem o desenvolvimento de ambientes de “intimidade, proteção, refúgio, centralidade e conforto”. O valor da intervenção temporária estaria na força disfuncional que permite o surgimento da interação positiva entre usuários, a “amabilidade urbana”. Festas populares, blocos de carnaval, pistas de skate improvisadas e a Arte contribuiriam para o surgimento do “espaço feliz”, do qual Bachelard fala em “Poética do Espaço”. Porém, com as definições e objetivos dados acima, é justo escolher a via de intervenções temporárias supostamente não-comerciais e guiar o empenho teórico para a, talvez irreal, “amabilidade urbana”?

Sonja Vordermaier, "Streetlampforest", 2010.

Sonja Vordermaier, “Streetlampforest”, 2010.

Fontes parece interessada em demonstrar possibilidades espaciais de um conceito social bastante inefável. Para isso, faz uso, desde o início, de diagramas subsequentes às explanações. O esquema referente ao seu principal conceito diz: “amabilidade urbana como articulação das dimensões física, temporal e social.” Mas, a falta de definição das dimensões a serem articuladas é um problema não solucionado, embora seja esboçado nos estudos de caso.

O livro é dividido em 4 blocos. No primeiro, são apresentadas as teorias de base e efetuadas as conexões com uma constelação de 15 casos “exemplares”. Nos blocos seguintes, divididos em Apropriações espontâneas, Intervenções de arte pública e Festas locais, a autora emprega os conceitos apresentados em casos das cidades de Rio de Janeiro, Barcelona e Girona.

Entre o “urbanismo cotidiano” de Margareth Crowford e os “espaços eventuais” de Sabaté, Frenchman e Schuster, Fontes prefere o segundo. Tal posição encaixa-se na ideia de Giovanni La Varra, da cidade como um livro cheio de post-it, onde ações acabadas deixam marcas. Terminamos soterrados por perguntas. O temporário serve somente ao deixar marcas permanentes? A guerra santa contra o individualismo não nos atiraria num mar de conflitos de cortiço, mais pessoais que coletivos? Queremos uma família urbana no “espaço feliz”, quando nem sabemos mais o que é família? Afinal, não somos suficientemente eventuais para dispensarmos uma amabilidade funcional?

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