[conto] Fora da Linha 53

"Paralelo", 2015.

“Paralelo”. Rodrigo Hipólito. Fotografia, 2015.

 

Texto de Rodrigo Hipólito

Na guerra mais ardilosa que jamais travamos, não houve sequer um disparo. O cinema mentiu. A literatura, os astrofísicos e os economistas também mentiram. Não houve uma bomba, um estrondo ou alguma declaração emocionante do presidente. Nem mesmo é possível saber se mais alguém percebeu que a humanidade desaparecera.

Não sei a razão pela qual notei que tudo estava mudado. Provavelmente foi o acaso. Num passeio pela praia. Vi que as pessoas, todas elas, agiam como se esperava que agissem. Elas pareciam divertir-se, quando vistas em conjunto. Mas, ao resvalar o foco por uma e outra face, isso não se confirmava.

Elas caminhavam porque precisavam deixar de serem sedentárias. Alguém havia lhes dito isso. Durante todo o dia, era possível ver as pessoas exercitarem-se no calçadão e na areia. O estranho é que nenhuma delas parecia saudável. Algumas estavam gordas demais, outras fortes demais e algumas poucas estavam magras demais.

Ao saírem de um espetáculo de comédia e sentadas à mesa do bar, elas sorriam muito ou estalavam os lábios ante o sabor da cerveja. Era isso mesmo que deveriam fazer. Estava correto. Ainda assim, não causavam a mais ligeira impressão de que sentissem vontade rir ou estalar os lábios.

Isso me fez desconfiar se realmente as piadas eram engraçadas e se realmente a cerveja ainda possuía o sabor que um dia eu havia sentido. A conclusão previsível é que não. Não havia qualquer humor nas piadas e nem mesmo o comediante que as contava acreditava em seu poder de fazer rir. Ele era como um recorte de revista colocado sobre todo um cenário de recortes. Essa comparação se mostrou válida, também, para a cerveja. Era um recorte. O sabor não provinha da cerveja, mas de algum outro lugar onde cervejas talvez não existissem.

Ingerir qualquer espécie de alimento, após esse dia, tornou-se uma torturante lembrança de que eu não poderia mais sentir o mundo. Durante anos, mantive a dúvida presente. Talvez me acostumasse ao novo gosto e pudesse senti-lo no mesmo plano em que acreditava me encontrar. Isso foi inútil. Não havia gosto possível. Não havia cheiro, som, imagem ou superfície.

Alguma coisa ou alguém havia se instalado entre nós e o mundo. Minha teoria não parecia possível de ser comprovada, quanto menos transmitida. Não havíamos abandonado nossos corpos, nossa sociedade não havia sido dizimada, tampouco havia vermes que abraçavam nossos córtex. Apenas nossos sentidos foram tomados e o que acreditávamos serem sabores, sons, imagens, superfícies e cheiros, eram restos da digestão realizada por organismos que jamais perceberíamos.

Foi num lapso que minha teoria mostrou-se verdadeira e também matou qualquer esperança de voltar a sentir o mundo.

Olhava pela janela sem entender como era o verde das folhas das árvores. Sem um aviso sequer, o peso de todo meu corpo apareceu. Meus pés foram pressionados contra o chão e quase me ajoelhei pela surpresa. Como se, antes, estivesse voando ou deslizando sem atrito pelo chão. Tive dificuldades para dobrar o joelho e erguer a perna. Foi necessário um esforço comparável ao de acordar com uma ressaca animalesca.

Tentei me recuperar do choque. Com os olhos fechados, coloquei a cabeça para fora da janela e inspirei profundamente. O resultado foi uma crise de tosse que me levou ao chão, de onde somente saí após longos minutos de boca seca. Mantive a boca aberta, pois o acúmulo de saliva me trazia uma insuportável ânsia de vômito.

A sala esquentou sem nenhuma razão aparente e eu suava. Minha pele grudava em minha pele e, ao perceber que o cheiro forte que me enjoava era o cheiro do meu corpo, notei também que havia voltado a viver.

Aos poucos, pude me levantar. Abri a geladeira e devo ter passado horas encostado às prateleiras, com a porta aberta. Ingeri litros de água gelada e somente parei de beber quando não encontrei mais garrafas cheias.

Observei minhas calças de um jeans azul quase branco, a embalagem amarela da comida congelada, o vermelho dentro do pote de ketchup e as azeitonas me fizeram caminhar até a janela.

Vi as folhas verdes. Vi que as folhas não eram somente verdes. Vi que o verde das folhas mudava a cada instante e que não seria possível sentir o verde das folhas sem sentir outro verde no vento e outro verde nos pássaros e outros verdes nos prédios por detrás das árvores.

Ouvi a campainha tocar, estridente e assustadora. Eu sorria quando me aproximei da porta. Estúpido, deslumbrado. Olhei através do olho mágico e ao ver o entregador de pizza, tudo desapareceu novamente.

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