Um romance

Retiremos os números do relógio e deixemos seus ponteiros sem rumo. Orgulhosos adivinhamos o horário marcado, mas basta vir uma sesta febril para não sabermos se acordamos no mesmo dia ou no dia seguinte. Como um paciente que acorda do coma, o peso do tempo é diferente diante de uma ausência prolongada. Não percebemos quantos anos se passaram entre o “Oi” e o “Adeus” até nos atentarmos para detalhes do rosto, das novas histórias que se entrelaçam involuntariamente.

Anos podem passar sem que nos lembremos de alguém, por perdermos a referência de sua existência. Cair no esquecimento é mais recorrente que espirro no inverno. Já o retorno é raro e trabalhoso. Entre um e outro, podem se passar 5, 10 ou mais provavelmente 14 anos, como é o nosso caso. Uma história longa, sem muitos fatos, mas de entrega e paciência.

A primeira vez que ouvi seu nome, já não recordo muito bem. Na despretensão, guardei poucos traços em minha memória. Somados alguns anos, reencontrei-o. As feições já eram diferentes, julgava até ter renascido. Se antes o vira como um jovem senhor europeu, com pequenas marcas do tempo, agora era definitivamente jovem e altivo, preservado pela bondosa ausência de sol. Longos cachos negros pendiam de sua cabeça, sempre inclinada a ignorar qualquer sentimento alheio ao seu caminhar sentenciado. Excêntrico, seria a palavra mais correta. Sua presença foi, de certo modo, importante naquele momento. Acompanhou-me em mais uma fase estranha de meus divertimentos. Cansada, logo o perdi de vista novamente. Um Adeus facilmente proferido.

E não posso dizer que grandes marcas foram impressas. Em pouco tempo seu nome misturou-se a outros tantos, sua condição diluiu-se em outros tantos títulos que vieram a me circundar. O que importa se estudante, se banqueiro, plebeu, se conde, se rei ou até imperador. Nem sempre estamos dispostos a nos tocar por nada mais que um discreto sorriso passageiro.

Contudo, sim, sempre há um “contudo, porém, no entanto…”, aqueles que temem o Alzheimer em seu hipocampo esforçam-se por reavivar memórias que quase não mais respiram. Por um leve vento de sussurro, ouvi que ele voltara à cena. Visto com o canto do olho, parecia mais que um ornamento para um modernista. Sua presença não podia ser ao acaso, nem supérflua. Sabia, no fundo, que ele seria importante em algum momento. Espreitei-o, continuamente. Como um animal ferido que cerca a caça por vários dias, esperando o melhor momento para atacar sem chances ao erro, esperei, ah, como esperei. Analisei todas as possibilidades, todas as minhas necessidades. Quando se age por impulso, corre-se um risco prazeroso que nem todos estão aptos a arcar. Talvez tenha demorado muito para aproximar-me, quase um ano, e mais um tanto para tê-lo ao meu lado, mais uns 16 meses. Um ladrão que se julga arrependido desfruta de sua conquista com um sabor a priori amargo, mas de enorme gozo.

Naquele corpo não podia haver maior grandiosidade e recompensa. Cada palavra proferida parecia flores que, mesmo quando espinhentas, davam forma a aleias mais impressionantes que qualquer paisagem de Paris.

Após um grande esforço inicial, trilhamos uma cena cheia de encantos e melodicamente ornada a contragosto de muitos que ainda respiram, ainda leem, mas que não entendem o mel que corre em cada segundo dedicado a quem se ama. Não confundam com a aproximação rimada, um tanto piegas, admito, com o fel daqueles que se perdem no caminho ou que se encontram em outros ritmos de divertimento. A estes são destinadas atividades de outro prumo, mas nem por isso menos valiosas. Já me avisaram que é uma fase. Aquela em que se mistura o esforço de andar longe de casa com o prazer de estar em outra realidade. A distância pode ser cruel, trabalhosa e às vezes incompreensível em suas traduções, mas nos embala carinhosamente até nos abandonar.

Sim, palavras tão exageradas em tempos que não é preciso dizer muita coisa para pensar que se comunica, para no fim não sobrar nada mais que a esperança. Encontrar-me vendo o sol nascer já é um presente que suaviza a emoção de uma partida noturna. Porque quando se fecha a página e a última frase diz “Esperar e ter esperança”, nada mais posso fazer, com o coração aflito, que esperar, nessas aleias, uma nova paixão.

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Texto produzido depois de lágrimas, sorrisos e apertos proporcionados pelo Conde de Monte Cristo, ou melhor, por Alexandre Dumas. Aleia, devo dizer, foi uma das palavras que ele me ensinou. Um vocabulário novo e o retorno de palavras adormecidas. Esclareço, além disso, que meus três encontros com o Conde foram respectivamente, pelo filme de 2002, dirigido por Kevin Reynolds, o anime Gankutsuō (que mescla a história do Conde de Monte Cristo com o clássico Drácula de Bram Stoker) e, por fim, a edição bolso de luxo da editora Zahar (minha compra mais hesitada e aguardada em uma feira de livros).

Esse texto não pode ser considerado, provavelmente, como uma resenha. Pouco falo do livro, da narrativa, dos personagens, mas essas palavras traduzem parte da emoção de encontrar uma leitura tão prazerosa e cheia de surpresas. Por mais que se conheça a história, não se imagina (ao menos eu não havia parado para pensar a respeito) que em 1664 páginas haveria outras tantas histórias envolventes e interligadas a um único personagem. Despedimo-nos sabendo que depois desse encontro o mundo amanheceria com os ponteiros parados, e que mesmo distantes, meus olhos nele estariam.

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O conde de Monte Cristo

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