Pornografar o Mundo I – “O Olhar Pornô”

ABREU, Nuno Cesar. O Olhar Pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo. Campinas: Mercado de letras, 1996.

Recorte a realidade visual até o momento em que o erótico não seja mais o contexto de fingida ocultação, mas a evidência extrema do que é “vergonhoso” ser mostrado. Exponha a vergonha com orgulho e impressão de prazer/sofrimento. Isso me recorda de que eu gostaria de pornografar o mundo.

Como a imagem em movimento deslocou nossa privacidade? Como a imagem em movimento nos deslocou para várias publicidades? A exibição do sexo e do ato sexual é como qualquer exibição (?), mas brinca com uma diferença crua: o “lugar” apresentado nas telas não é o mesmo “lugar de possíveis” no qual caminhamos durante o dia. A pornotopia do cinema e do vídeo pornô nos traz e nos leva para o lugar em que o sexo é o problema que se resolve no sexo. Essa mesma pornotopia dissolve os limites da narrativa. Nada lhe indica um fim plausível além das muitas ejaculações para a câmera. Essa mesma pornotopia dissolve o corpo. Nada resta na tela além dos órgãos decepados magicamente e que se movem como engrenagens de uma só máquina bem lubrificada. Os comportamentos se quebram e são novamente colados, com o rejunte a mostra, num par de saltos-altos vermelhos, numa máscara maquiada, numa sequência de poses de espera, num ideal inatingível de insatisfação.

"Passagem sintética", 2016.

“Passagem sintética”, 2016.

Embora beba de fontes mais antigas, a pornografia pode ser considerada um fruto das comunicações do século XX. A confiabilidade conferida e a fotografia, exacerbada com o cinema, é uma das principais possibilitadoras do olhar pornô. O que foi apresentado na imagem cinematográfica, e futuramente no vídeo, supostamente, “ocorre” no mesmo real no qual o espectador se pensa. A negação dessa afirmação, que também se verifica, alimenta tal sensação. O que ocorre na tela não é exatamente o real, mas o possível e o desejável. Como “outro lugar para estar”, com outras regras e contextos jamais detalhados, a pornotopia deixa de ocultar o sexo para ocultar o restante do mundo, o qual recobre “nosso” sexo.

Fora da tela, o sexo pode ser erotizado, na tela ele é escancarado, pornografado. Ao encobrir os contextos, o olhar pornô erotiza “aquele mundo” fantástico, onde o ato sexual e a insatisfação são os únicos possíveis, o lugar onde não há dúvidas que se resolvam de outra maneira que não pelo desejar.

Com rico detalhamento (movimentos, conceitos, teóricos, produtoras, obras, performers, vocabulário) o livro “O Olhar Pornô: a representação do obsceno no cinema e no vídeo”, de Nuno Cesar Abreu, pinta um panorama da pornografia audiovisual dos primórdios do cinema até o sucesso da indústria do vídeo caseiro. Certamente o mundo expandido pela internet multiplica as cores dessa e de tantas outras linhas de produção de visualidades. Tanto pela época em que foi escrito (metade da década de 1990) quanto pelos objetivos de análise do autor, tratar do cenário pós-internet não é uma preocupação nesse livro. Dito isso, o histórico de construção da ótica pornográfica e da pornotopia é fundamental para que se compreenda e se aproxime da realidade decorrente das vivências pornotípicas pós-internet.

Em cinco capítulos intitulados com bem humorada referência às características formais ou supostas do pornográfico, o autor enfatiza os processos que transformaram o modo de fazer e assistir sexo durante o século XX. Primeiramente, Abreu apresenta algumas distinções e relações entre pornografia, erotismo, segredo, obscenidade, fantasia e desejo, para então considerar o universo aberto pelo comércio da exibição sexual. Na maior parte dos capítulos, o autor parece interessar-se mais pelo desenvolvimento interno dessa indústria, pelas construções formais do produto pornográfico e pela relação entre essas formas de filmar, adjetivadas como “pornô” e as demais.

Dos stag films aos hard core, editados em larga escala, somos apresentados às principais preocupações da grafia pornô e levados a pensar em como esse modo de produzir e exibir sexo transforma o espectador. Embora não haja grande aprofundamento nas discussões que envolvem esse sujeito perdido em meio a telas simultaneamente públicas e privadas, mesmo nesse ponto, o autor tem o mérito de nos levar a perguntar sobre o papel do espectador como integrante de uma corrente de atitudes.

Não é possível ser “apenas” espectador quando a ação de ver envolve o medo e o desejo de ser visto em ação. É possível pornografar o mundo em ambos os lados de qualquer porta, janela ou tela e, em todo o caso, trata-se de agir sobre esse mundo.

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