Somar dúvidas

Trabalhar com a palavra muitas vezes requer ser dura e insensível com o tempo e a memória. “Não se apegue”… A pessoa que escreveu aquele texto já não existe, o momento e o destino do texto, também não. Como atualizá-lo sem ferir sua história? Enquanto penso sobre esta questão, transfiro a pressão do texto já escrito para o ato de destruir a pintura das unhas. Colocar cor onde já tem… Mesmo que eu afaste o texto já escrito, que ele suma de minha visão para me dar liberdade de escrever uma nova introdução, eu sei que ele está presente. Ouço sua voz a contar do seu nascimento como uma crítica cinematográfica, uma experimentação muito específica, uma vontade e uma frustração em escrever, em poucas linhas, sobre uma produção que tanto gosto, “Sarah e o Pato”. Uma escrita que não revelou os esquecimentos da Senhora do cachecol, nem as preocupações da Menina do prato ou as descobertas e vivências das chalotas.

Apagar, acrescentar, reescrever, mutilar, como poderia? Alguns textos são mais fáceis de revisar, mas aqueles que carregam um emocional não revelado são os que mais torturam. Trata-se de um problema de intimidade, que não pode ser solucionado com a fofura do Pato.

Não posso ser dura com ele, nem com Sarah, vou seguir em dúvidas…

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A dúvida entre a Sarah e o Pato

28 outubro 2016

Uma das companhias que passaram a fortalecer meu café da manhã ficou perdida numa indefinição que apenas notei ao iniciar este texto. “Sarah e o Pato” provavelmente não seria classificada, sob uma ótica institucional, como cinema. Isso, se pensarmos também num Cinema. O “C” no lugar de “c” faz grande diferença. Apesar de tratar-se de imagem em movimento e da artesania que envolve a feitura dessa série de animação, dificilmente a produção do estúdio Karrot (Inglaterra, 2013) apareceria numa coluna de crítica cinematográfica. Ainda assim, decidi da criação de Sarah Gomes Harris and Tim O’Sullivan por esse prisma. Essa foi uma primeira dúvida: o cenário da crítica cultural me permite abordar uma animação infantil como Cinema?

A segunda dúvida surge no interior da primeira. As características que mais me atraem e colaboram para que “Sarah e o Pato” seja uma agradável e enriquecedora companhia para os meus cafés da manhã são, simultaneamente, infantis e complexas o bastante para marcar minha vida adulta. Os temas dos curtos episódios variam de grau numa escala surpreendente. Em histórias de quinze minutos passamos da tristeza profunda de um velho arco-íris, distanciado de seus familiares pela efemeridade de sua existência ao sumiço de um prato de estimação. Como processar o impacto da percepção de que as oportunidades de experiência são passageiras sem perder as cores que nos dão personalidade? Como aceitar que nos ligamos tanto a objetos quanto a pessoas?

Cada episódio da série não constitui uma acelerada aventura, mas um estudo despretensioso do corriqueiro. Surpreende-me sempre que as ações, por menores que sejam, deixem marcas no cenário e nas personagens de modo a nos dar a entender um mundo crível, mesmo que fantástico. Junte-se a isso a ausência de estruturas rígidas de vigilância como família, escola ou polícia. De certo modo, as personagens parecem habitar os sonhos umas das outras e ligam-se, quase sempre, apenas por um desejo empático e pelos vestígios que deixam no cenário, isto é, no que permeia suas vidas e suas ações.

Fico com essas dúvidas não respondidas e a expectativas de algumas respostas. Até que ponto o papel da crítica é determinante para caracterizar os limites do objeto criticado? Como medir a relevância e a pregnância de uma criação para um público vasto e, se for parecido comigo, constantemente indeciso?

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