Tempo suspenso (será que funciona)?

“O incenso!!” – Acordei toda molhada com meu próprio grito. Que incenso? Eu detesto incensos. Meu grito não veio de mim. Enxuguei o rosto, passei a mão pelos cabelos e me senti mais confiante para me levantar e começar o dia. Não era dia. O cansaço não me permitiu perceber a tempo que eu ainda não deveria me levantar. Meu corpo não me obedeceu. Já estava a descer a escada, em meio à penumbra da luz que vinha do novo e odiado poste em frente de casa, quando parei. Fui barrada por um cheiro insuportável de canela. Cheiro de mar gruda na gente pela maresia, mas a canela entra por cortes na pele.

Agarrei-me no corrimão e forcei a perna esquerda que, desatenta, continuava a querer descer. Por favor, não. Minha traqueia não aguentará. Era uma casa com poucas regras, mas uma delas era muito explícita: proibida a entrada de canela. Na história desta antiga construção, apenas uma vez um pau de canela adentrou pela porta. Foi uma semana intensa, de ranger das madeiras, de portas agitadas, vidros quebrados. Proibições somente seriam aceitas caso a liberação afetasse a saúde da casa. Depois deste dia, o tapete de entrada recebeu um adendo: Bem-vindo. Sem canela.

Direcionei toda a força do corpo para a porta. Precisava conferir se o tapete estava intacto. Após dois degraus, o corpo se auto deteve. A perna esquerda atendeu ao chamado dos olhos lacrimejantes e insistiu em voltar ao topo da escada. Uma branda fumaça flutuava no nível inferior da casa. Simbolistas achariam atraentes os indícios formados pela movimentação daquela estranha nuvem. Os corpos da casa, assim como o meu, não se interessavam por aquele mistério. Cada silhueta gerada e, em seguida, dissipada, era uma ameaça.

Entre descer até a porta e subir ao ponto de partida, o corpo, ameaçado, estancou. Tentamos observar, atentos a cada variação, porque aquele corpo, já não o sentíamos de modo primário, em primeira pessoa. A casa reconhecia a mão do corpo a prensar a madeira do corrimão, um aperto sufocante, mas não encontrava o sentir daquele que a habitava. E eu observava a pequena gota de suor a deixar a mão direita daquele corpo que era meu, percorrer o corrimão e turvar-se para o fim da escada. O distanciar rompia a conexão de sentidos. Uma ínfima parte do todo ainda seria todo, se não fosse a profusão de canela. Suor escorrido, mãos trêmulas, pernas enfraquecidas. Quanto mais silhuetas se agrupavam no lugar, mais excluído o corpo ficava.

A névoa tornou-se densa. Se a porta se abrisse, a emanação seria sugada e extinta – este deveria ser o pensamento refletido naquele sorriso torto de canto de boca. Mas, quem a abriria? A experiência passada da casa era uma memória paralisante. As portas não se agitaram, mortas ou alienadas, precisariam de assistência. Quem iria assistir? Se eram estes os pensamentos do corpo na escada, era perfeitamente explicável a tremulação da blusa, a refletir a palpitação desolada. Quanto mais o corpo se apartava de nós, mais um degrau a nuvem subia. Quanto mais a nuvem subia, mais o corpo fraquejava em direção ao chão. O suporte ainda era o encontro entre a madeira e a intensa mão direita.

As pernas desistem e o pânico se instaura. As batidas clichês do coração nos distraem da única e pequena esperança, logo iria amanhecer. Eu me sentei, descansei as pernas, deixei que se entendessem novamente e quase cochilei. Despertei da modorra com um vento de chuva que fez os pelos da nuca arrepiarem. Vento? É. A janela da cozinha havia dormido aberta. Eu bem sabia que a nuvem de canela não havia sido convidada. Em mais umas piscadas de olho, a fumaça tóxica começou a ser varrida pra fora de casa pela mesma janela por onde havia entrado. Então a mão e a madeira esperam, porque a canela é fel em nuvem e logo se dispersará.

 

Tempo suspenso

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