[texto de processo] A escrita como processo do presente

Texto de Fabiana Pedroni

 

Um texto marcado sobre folha é um texto que finca raízes em uma ilusão. A rigidez do corpo da letra, impressa sobre um suporte, parece mantê-la intacta ao tempo. Mas, textos têm raízes no presente. Quando me deparo com o processo de escrita e desenvolvimento de uma ideia, observo que o texto mantém sua forma, mas seu significado flui entre o sujeito do passado e do presente. Verbalizo as mesmas palavras, mas elas buscam um contexto presente que antes não existia.

Em 2017, eu escrevi que “Vivemos em um momento de carências”, frase que ressoa como um lamento ainda mais arrasador em 2020. Como eu saberia, em momentos anteriores à pandemia de Covid-19, que hoje eu sentiria, de modo tão mais intenso, a falta do corpo das coisas?

O texto datilografado, que podem acompanhar abaixo, surgiu como um modo de reaver o corpo da palavra e do processo, pouco a pouco mascarados pelos meios digitais. Datilografar em uma máquina carregada de história me reaproxima da escrita e do meu próprio modo de pensar e viver a escrita. Cada erro é visível e irreversível; não há por que ter medo. O texto não é miraculoso, nem mesmo surge de geração espontânea. Quanto mais consciente nos tornamos do processo de nascimento de um texto, mais fácil se torna lidar com sua existência e sua mutação. O que eu quis, um dia, dizer com o corpo da palavra, hoje se modifica substancialmente a cada momento em que me aproximo da janela e vejo um mundo diferente.

Como posso superar meus receios de início e expectativa para a formação de um texto? Encontrei aquilo que me incomodava: a folha em branco e a possibilidade de me desfazer em poucas teclas de delete. Eu trouxe para o texto uma saída que vem do meu mundo de vivências e de diversão: o som das teclas, o desapego da perfeição. Tenho carência de imperfeições, tenho carência de produzir sem frustrações.

Texto datilografado

Fotografia de texto datilografado. Origem do projeto de doutorado de Fabiana Pedroni.

Transcrição do texto datilografo mostrado na imagem:

 

QUANDO EU IMAGINO O TEXTO PELO TATO: IMAGEM-OBJETO COMO ACONTECIMENTO

Vivemos em um momento de carências. Sentimos a falta do corpo das coisas, questionamos (ou nâo, há que m prefira nã o se manisfestar) o que não podemos tocar, o que não reconhecemos como parte do mundo sensível. Se em determinados momm contextos a matéria carnal era prerrogativa para a cognoscibilidade, hoje, a carne e o tato deixaram o corpo físico para habitar a relação que nos constroe no mundo.

Talvez esse deslocamento nem tenha ocorrido de a fato, mas nos tornamos mais atentos ao tato quando este nos foi negado, ou e melhor, transformado em uma relação aimnda mais virtual. Passamos a observar com mais atenção (e não com o canto do olho) cada marca visual e objetual deixada no papel. Seria redundante dizer visual e objetual se já não compreendessemos que o visual transborda o objeto para ocupar outros lugares. Esse ‘ocupar’ diz mais do hábito que do espaço.

Diante desta folha, desta escrita, deste ato, cada elemento visual, e não visível, se torna imagem da nossa presença. Somos carne do mundo. A carne que não é substância, que não é espírito , mas elemento que evidencia o toque, que me mostra (imagem) o toque da tecla em meus dedos e o toque dos meus dedos na tecla. Tocar-se como processo de existência. Tato que nos presentifica na relação de leitura de um texto que é imagem e objeto.

Colocom esta escrita em uma situação que em que se subverte o hábito (virtual) da própria escrita. Economizar espaço, atentar-se para o gesto, aceitar, com esforço, marcas não previstas, mas tensionados na compreensão do ato.

Se em determinado momento questionamos quando um livro (ou texto) começa é por que queremos tensionar os nós desse entrelaçamento (quiasma) criado entre a ação do sujeito, seu corpo, o corpo e ação do objeto com… sim, nos deixamos perder dentro dessa relação. Não porque nos distraímos, não porque o corpo da letra assombrou nosso entendimento, mas porque tentamos fechar a relação sujeito e objeto em si, ao evidenciarlos como carne, e deixamos em segundo plano o acontecimento que é a própria abertura dessa relação.

Quando nos colocamos diante desta folha, encontramos texto e imagem a trabalhar pelo tato, a figurar e habitar uma situação muito específica que queremos que nos marque. A marca traz a imagem da escrita/leitura para o presente daquele que se envolve. Marcar, tatear, imaginar, ler, são atos da mesma carne.

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