O morro de terra e a serração

Sem título. Fabiana Pedroni. Estudos com giz, lápis e aquarela, 2020.

Texto de Fabiana Pedroni e Rodrigo Hipólito

 

Pra este dia, eu queria ver uma bolinha descer o morro de terra. Queria vê-la quicar a cada formigueiro atropelado. Eu me solidarizaria com as formigas confusas que não saberiam quem devastou sua casa. A bolinha desceria, neste dia de Páscoa, mostraria paisagens imaginadas e daria aquele sossego de continuação.

Mas o que eu queria mesmo era trazer para bem perto o pretérito e sua imperfeição. Riríamos do tempo em que a mesóclise era pomposa e dar-lhe-ia um beijo de boa noite.

Tudo isso eu faria, se tivesse uma bolinha e um morro de terra.

 

***

Eu quis, por um dia, não produzir. Esta é a verdade. Estava na companhia dos mesmos papeis que escrevo textos científicos, com os mesmos lápis coloridos que faço desenhos elaborados; os objetos eram os mesmos, mas só em aparência. O combinado foi o seguinte: risque bobagens. Vai ficar errado, vai ficar sem sentido, talvez nem fique nada, não importa. Faça alguma coisa sem o peso de meses de planejamento e sem a perspectiva de uma produção artística ou de pesquisa. Ingenuidade querer tornar o mundo transparente, mas, só por hoje, eu queria que ele flutuasse em azul.

Morro de terra e serração. Fabiana Pedroni. Ilustração. Aquarela sobre papel, 2020.

Não se você já experimentou a serração do começo de uma manhã de quase inverno dos mares de morro. Um pedaço de um morro aparece ali, outro desponta lá adiante. Um pedaço de cerca de arame mais para a esquerda e uma curva de estrada de terra lá no fundo.

Para algumas pessoas, a impressão talvez fosse de que a serração cobria o resto dos morros, da cerca e da estrada. Pra mim, sempre ficava a sensação de que aqueles pedaços de mundo estavam soltos, como se a serração fosse uma folha de papel em branco e uns garranchos aparecessem espalhados.

Naqueles momentos, tudo parecia inacabado e tudo parecia possível.

Talvez esta seja a sensação do que chamam de transição. Não se tem noção mais profunda e carnal do que é a duração de um tempo. Quanto dura um “mais uns dias”? Não se sabe quando algo termina e um novo começa, ou se o novo já é velho e estamos a flutuar entre um morro e outro. Fomos atropelados por uma ilusão e a vontade tornou-se impotente. E talvez, dentre as muitas repetições de incertezas, a impotência seja também uma ilusão, sufocada entre a necessidade de negação da própria mudança e o excesso de vontade ainda paralisada. Quem sabe precisemos puxar um banquinho e sentar um pouco para ver os mares de morro a se locomoverem para, então, conseguirmos ver não só a serração, mas o que há através dela.

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Um pensamento sobre “O morro de terra e a serração

  1. Pingback: NPC18 – Como não ser cruel com você – NOTA manuscrita

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