[crítica] O sólido onde grafita o ar

Imagem de capa. Graffite. Luara Monteiro.

Imagem de capa. Fotografia de Luara Monteiro. Revista NÓS, nov. 2010, p. 8.

Texto de Rodrigo Hipólito

Quando escrevi o texto a seguir, eu me irritava bastante com críticos que se dedicavam a ressaltar pontos negativos ou apenas atacar trabalhos. Na época, eu tinha dificuldades de encontrar boas justificativas para que críticas negativas fossem feitas. Em alguma medida, o ímpeto que me movia ainda faz sentido e tem relação com sentir-se artista. Havia uma vontade forte e raivosa de que as pessoas falassem mais sobre tudo o que merece ser falado. Eu queria que os textos críticos de jornais gastassem todas as suas letras para ressaltar tudo o que havia de denso nos trabalhos que perdiam espaço para polêmicas.

Hoje, eu sei que existem outros lados e algumas justificativas muito boas para gastarmos páginas e mais páginas para demonstrar que algumas ideias não devem ser seguidas. Isso é outra história? Em parte sim e em parte não.

Você lerá um texto que fala sobre grafiiti e que possui trechos positivos o suficiente para serem inocentes. Os artistas citados no texto não deixam de ser interessantes por conta dos limites do autor dos comentários. Há, no entanto, tudo o que eu deixei de lado e que torna a entrada do graffiti nos circuitos de museus e galerias algo bem mais complexo.

Pra ajudar a pensar essa complexidade, seria bom que a leitura deste texto fosse acompanhada da escuta de dois episódios do Não Pod Tocar: NPT S03E16: Criminologia Cultural e NPT S02E14 – Cultura Maloqueira e os Sentidos de “Atropelo”.

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as tensões do efêmero no concreto provocadas pela imagem-lugar graffiti

Publicado originalmente em: HIPÓLITO, Rodrigo. O sólido onde grafita o ar: as tensões do efêmero no concreto provocadas pela imagem-lugar graffiti. Revista NÓS n. 2. Novelo. Vitória: Programa Rede Cultura Jovem, nov. 2010, p. 9.

É possível ouvir o som das sirenes, dos sorrisos, dos gritos e das batidas nos muros frios da madrugada urbana, mas os alto-falantes não estão fora e sim aqui dentro. É fácil se encontrar com o carrossel de insinuações multiformes, multicoloridas, multiplicadoras nas vias principais da cidade. Cada imagem grafitada é um item (e um mar) na coleção impossível de sensações e proposições que é a cidade (amontoado de seres humanos no embate entre individualismo e carência). Estaria, ali, a superestimada urbanidade do tempo de mortes prematuras da imagem e da palavra? As respostas são inumeráveis cliques fotográficos, tentativas de retratar um ato sintético, direto e específico. Talvez ainda haja um traço de Ficore, interrompido pelo flagrante, no alto do antigo Pouso Real, no Centro de Vitória. É exatamente na correria pelas escadas, nos patamares saltados e tornozelos torcidos, que encontramos a característica básica da geração nascida de contradições do convívio: audácia.

O graffiti, detentor da audácia, é também hábil na diplomacia. Por isso, tem recebido o caloroso abraço das instituições não só do museu, mas da galeria e do especialista, da ARTE. Abraço repudiado por muitos e astuciosamente retribuído por outros. Na retribuição do abraço, uma proposta é sussurrada num sorriso: podemos trabalhar ideias que estão muito além da imagem. Proposta que não é unilateral, pois ocorre somente quando o sistema de arte repensa seus papéis desempenhados até então e decide apontar para fora de seus domínios. O graffiti nasce todos os dias sem o compromisso de ser arte. Os museus, aparentemente, gostam disso. Tal despretensão faz sorrir também o mercado. Todo o estereótipo e toda a técnica são vendáveis. Uma boa técnica que faça um estilo ser reconhecível é moeda de grande valor. O projeto O sonho de um grafiteiro, de André Martins, pelas indicações de Alecs Power, demonstra a vibração de incontáveis variantes de se fazer graffiti.

Procurar uma visão unificadora para algo que jamais demonstrou dissolução – mas pelo contrário, constrói-se sempre com mais solidez – talvez seja se agarrar ao olhar simplista ou impróprio da atualidade; é brincar de recortar manchetes do jornal de ontem para construir as manchetes de hoje. Teríamos de usar de arbitrariedade e ignorar práticas necessitadas de novos termos.

No protesto impaciente a chamar pela ousadia, na expressão da territorialidade e no grito delinquente, na marca efêmera repleta de referências e na assinatura da arte, em todos e em cada um dos casos, o graffiti mantém uma propriedade reconhecível e indefinida. Não fosse assim, chegaríamos até tal discussão?

Há galerias de arte exclusivas para o graffiti, que ainda está no início da sua caminhada pelas paredes do museu. Apesar de já o termos visto dentro de museus, ele ainda é um convidado excêntrico nessa mesa elitista, pois, para se firmar como conteúdo na instituição, é exigida uma melhor definição dessa “expressão artística”. A 1º Bienal Internacional de Graffiti de Belo Horizonte (2008) pôs o graffiti na esteira rolante do sistema de arte e o pacote passou direto por nós, pois não o reconhecemos como nosso. O olhar turvo é ferramenta para a 1ª Bienal Internacional Graffiti Fine Art, encerrada mês passado, no MuBE (SP), onde debates buscaram evidenciar relações entre graffiti e artes plásticas nas particularidades da arte urbana.

No Espírito Santo, a Semana do Graffiti, evento realizado em março desse ano, trouxe uma estrutura formada pelos próprios grafiteiros para mostrar os valores de suas práticas. Como nas ideias do grafiteiro Fredone FONE, a cidade tornou-se Galeria, desamarrada de pesos históricos estranhos a essa geração. Opiniões e desejos conflitantes unem os ensinamentos do Prof. Fagundes, no Centro de Referência da Juventude, às intervenções feitas dentro do Museu de Arte do Espírito Santo pelos grafiteiros do Instituto TamoJunto, à luta diária de André Martins, que vive o graffiti como seu trabalho e identidade, e ainda a cada marca deixada pela cidade, como as linhas desesperadoras de Marc1 e Japão, nos tapumes da Fábrica 747. Em todos os casos, a compreensão é o inesperado. A parede do museu dura menos que a banca de revista transformada em caixa mágica de formas imbatíveis na Av. Jerônimo Monteiro.

O melhor é que não temos controle sobre o que os olhos alheios querem ou podem enxergar. Cada graffiti é imagem e é lugar. Ele nos faz enxergar que estamos dentro da cidade dentro de nós. Surgem como suportes: a cidade visível, tocável; a cidade invisível, o espírito da urbanidade, o ar da cidade; e o fato de respirarmos esse ar, experimentarmos ser urbanos. Por esse espírito é que trabalham Fredone FONE, Alecs, REN, Japão, Somall, Iran, Limão, GRD, AQI, Fagundes, Giu, Kito, Canela, Ed Brown, Smoke, Cain, James, Moska e Arme (Cachoeiro do Itapemirim), Dione (Anchieta), Liam (Guarapari), Ficore e muitos outros.

Aquilo que a cabeça “grafita” é a vida que existe no momento em que o olho insiste em piscar.

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