[textos de processo] Uma carta, uma amizade

Textos de Fabiana Pedroni e Rodrigo Hipólito

Parei por um momento, com tudo esquematizado na cabeça. Iria escrever sobre cultura brasileira em terras estrangeiras. Mas, alguns textos são como folhas transparentes, suas palavras se encontram com as palavras das próximas páginas. Palavra puxa palavra.

Foi assim que aconteceu: Eu escrevi um texto, ele escreveu outro, e os dois textos eram um mesmo. Um encontro que vocês vão presenciar:

“Meu primeiro amigo preto.

Durante toda a minha infância, eu tive apenas um amigo preto. Nós morávamos nas últimas casas de um morro, em uma cidade do interior que parecia ter sido construída no fundo de um gigantesco buraco. Nós morávamos na borda.

Quando nos conhecemos, nós seguimos uma rotina durante semanas. Todos os dias, no final de tarde, nós nos encontrávamos sobre uma grande pedra, no alto daquele morro. Nós nos sentávamos, conversávamos e observávamos a cidade ao pôr do sol. Acontecia de apenas ficarmos em silêncio. Eu me sentia bem e seguro, como não acontecia na escola, na rua ou em casa. Naqueles momentos, ninguém me olhava atravessado e meu corpo não se tencionava, na espera por uma palavra agressiva ou um dedo apontado.

Eu demorei anos para compreender o que era aquela sensação. Sentados sobre a grande pedra, ao lado de uma árvore antiga, no alto do morro da margem, eu não me sentia mais sozinho. Naqueles finais de tarde, eu sentia orgulho por nós sermos duas crianças pretas que olhavam o mundo de cima.” por Rodrigo Hipólito

***

“Olá, Keca! Hoje resolvi te escrever uma cartinha. Você não conheceu minha avó, mas, quando vi você fazer a brincadeira de adivinha com a florzinha do seu cabelo, lembrei demais dela!

Minha avó amava ipês! Ipês e flores. Ela tinha tantas plantas lindas. Quando criança, eu brincava de me esconder debaixo das folhagens aveludadas, como quem joga um cobertor e cria um outro mundo num cantinho de casa. Você já fez tenda na sua sala? Eu fazia tendas no quintal, debaixo das plantas. Ninguém me achava.

O que eu mais gostava, não era exatamente das flores. Elas eram lindas, mas, gostava mesmo era do sussurro cantado. Minha vó sempre cantava baixinho algumas cantigas enquanto molhava as plantas.

Era engraçado porque ela misturava cantigas de roda com parlendas. Era uma mistura bem maluquinha! Eu ouvia uma tal de vaca amarela que botava ovo amarelinho, depois comia feijão com arroz, e mais sete oito, comia biscoito. Quietinha entre as folhas, eu ria muito das bagunças dela. Ela misturava todas as parlendas e ainda ria sozinha!

Acho muito legal quando você comenta, lá no seu Instagram, sobre as parlendas. A gente fica achando que folclore é coisa de tradição que não muda, mas olha ele lá na internet!

Você sabia, Keca, que há muito tempo, quem estudava e falava sobre folclore, acreditava que ele deveria ficar ali, paradinho, como estátua sem vida? Hoje, a gente sabe que não, o folclore não é uma estátua? Folclore tá na vida, tá na cantoria, tá rodando na roda, tá no tutu de feijão!

E é assim, nesse gira gira, que o folclore permanece e faz da tradição uma mudança. É bom demais saber que você está levando a cultura brasileira para seus amigos!

Espero continuar criando várias memórias afetivas com suas histórias, Keca!

Com carinho,

tia Fabiana”

Este ano eu conheci a Keca. Menina negra, de 10 anos de idade, com flor de ipê amarelo no cabelo. Quando a conheci, ela era uma ideia, que logo ganhou corpo e personalidade.

Keca tornou-se mais que uma personagem, uma amiga. E essa é a proposta do projeto “Uai, Keca?“, trazer a amizade como processo de criação de memórias afetivas. A menina Keca nasceu no Brasil e foi morar na Alemanha. É uma criança expatriada, cheia de energia e curiosidade. Ela tem aprendido muito sobre a cultura brasileira, sobre o idioma, folclore, e compartilhado com seus amigos tudo o que descobre.

Vocês já a encontraram por aqui, quando ela fez uma entrevista com o Saci. O projeto, composto por Camilla Saloto, Kelly Abreu e Fabiana Pedroni, deu origem também à Coleção Saciar, que apresenta personagens do folclore brasileiro para crianças em terras estrangeiras. O Saci foi o primeiro livro da coleção, e a escolha é significativa: personagem negro, com deficiência e discriminado em vários sentidos.

O texto de Rodrigo Hipólito, sobre seu amigo negro, foi escrito para um #tbt no Instagram da Keca. Esta memória de infância é uma das memórias que Keca busca construir com seus amigos. Foi este o encontro mais profundo entre as palavras: o poder da amizade.

Amizade que vem da rotina, de sentar-se na pedra e ver o mundo de cima, do encontro pelas brincadeiras, nas parlendas, nos livros de colorir, nos teatros de fantoches. A amizade que é encontro constante. Por isso Keca existe, para sentar-se junto de crianças que estão longe da terra natal, ou longe da terra natal de seus pais.

O cuidado com a infância é um ato diário e que melhor se estabelece através da amizade. Ainda quero escrever muitas cartas para Keca.

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