[resenha] O portão do obelisco, de N. K. Jemisin

Imagem de capa. Castrima Comm. Judd Mercer. A quinta estação. Jemisin.

Imagem de capa. Castrima Comm. Ilustração de Judd Mercer. Grande caverna repleta de cristas azulados e arroxeados, com muitas áreas escuras. ao centro e ao fundo, há estruturas de habitações e pontos de luz artificiais. Ao centro, mais à esquerda, pequenas silhuetas de pessoas caminham sobre plataformas e escadas.

Jemisin, N. K. O portão do Obelisco. Trad. Aline Storto Pereira. Trilogia Terra Partida, livro 2. Editora Morro Branco, 2018.

Texto de Rodrigo Hipólito.

Leia a resenha do primeiro volume, A quinta estação.

Algo que eu não havia comentado sobre, na resenha do primeiro volume dessa trilogia, são as escolhas de ponto de vista. Boa parte do primeiro volume é narrada na segunda pessoa. Essa escolha não é meramente para causar estranheza em quem lê.

Somente em O portão do obelisco é que descobrimos quem narra a história. Saber quem narra a história, nesse caso, faz com que repensemos aquilo que foi narrado. Não se trata de um narrador não confiável, é bem mais que isso. Essa história é sobre a disputa pela vida e pelo direito de decidir sobre ela. Disputas têm lados. O lado que narra a história determina a impressão que temos sobre ela e ainda mais. Quando o narrador está envolvido nas disputas que narra, sua voz não pode evitar a parcialidade.

Jemisin sabe disso e não tenta encobrir esse narrador com desculpas. Ela escolhe um narrador que está para além das nossas simples confiança ou desconfiança. Ele é de difícil compreensão e estamos ocupados demais com o esforço de aceitar o seu ponto de vista para decidirmos se sua voz é ou não viciada.

Talvez, essa escolha do narrador cumpra ainda outra função. Nesse segundo volume, a história para por uma escalada que altera as dimensões dos problemas enfrentados pelas personagens e dos embates éticos sobre os quais precisamos pensar, do lado de cá da leitura. É difícil refletir sobre problemas planetários e históricos sem nos afastarmos da percepção de que sempre lidamos com pessoas.

Pra evitar esse afastamento, a autora cria personagens que são forças da natureza, são parte extensa da história de seus povos, mas não deixam de se mover por seus desejos, ideais e perspectivas de futuro. Pode ser inocente e primário se relacionar com uma narrativa como se fosse apenas uma metáfora para a realidade. Histórias são histórias. Mas, como disse Úrsula K. Le Guin, a introdução de A mão esquerda da escuridão, “Toda ficção é uma metáfora.”

Das muitas metáforas possíveis para se relacionar com a trilogia da Terra Partida, é difícil não pensar nos nossos problemas ambientais imediatos e em como eles se relacionam com nossas histórias, tradições, preconceitos e disputas. O sentido de “terra partida” ameaça se tornar óbvio quando fazemos uma análise superficial. Mas, Jemisin não permite que isso aconteça.

Essun se ambienta em Castrima e reencontra Alabaster depois de anos, ou o que restou dele. Ela tenta compreender como a estação foi desencadeada e “por quê” isso foi necessário. Conhecemos a perspectiva de Nassun e o ressurgimento de Schaffa. Entendemos quem é Hoa e o que raios acontece com esse mundo, que deve ser o nosso, daqui alguns milhares de ano, ou mais.

As mudanças de pontos de vista são mais frequentes e isso não somente contribui para a tensão crescente da narrativa, como cumpre uma função didática. Diferente do primeiro livro da trilogia, em O portão do obelisco, nós precisamos compreender conceitos diversos daqueles que são tradicionais em livros de fantasia e ficção científica.

Por vezes, fica a impressão de que a própria autora estava na caça por palavras que servissem melhor para a indicar as ideias abstratas ali presentes. Alguns conceitos são apreensíveis e outros não. Algumas cenas são simples de serem descritas e imaginadas, enquanto outras são uma pintura abstrata.

Esses são os dois exercícios que me foram mais interessantes durante essa leitura: como realizar a leitura de elementos que não são ditos de modo direito, pois não não podem ser apresentados em palavras? Como não deixar de dar importância para as pessoas, pequenas e passageiras, enquanto nos preocupados com o destino de todo o planeta e os sentidos de grandes lapsos históricos?

Esse não é um livro entediante de filosofia (hoje, já não tenho muita paciência pra esse tipo de coisa). As personagens são bem construídas, cativantes e fazem com que você se ocupe delas e se preocupe com elas mesmo quando as detesta. Eu me apeguei a algumas dessas pessoas, na primeira parte da história, e tive receio de perdê-las. Fazia um tempo que não sentia isso com um livro.

Não há personagens simplesmente tapados e que te irritem porque você consegue pensar em alternativas melhores do que as que são escolhidas. Não é esse tipo de história. As dúvidas e decisões das personagens são difíceis de verdade. Eu não faço ideia do que faria na maioria daquelas situações.

O portão do obelisco é a continuação imediata de A quinta estação. Se eu não consegui me aguentar e emendei as duas leituras, é provável que logo a resenha do terceiro livro também esteja aqui. Se bem que, eu resolvi escrever este texto antes de ler o último capítulo…

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