[resenha] Vagabundos, de Hao Jingfang

Imagem de capa. Vagabundos. Hao Jingfang. Resenha.

Imagem de capa. Detalhe da capa da edição chinesa de Vagabundos. Ilustração do planeta Marte com um meteoro cruzando o espaço em primeiro plano e o título do livro em caracteres chineses na parte superior da imagem.

Texto de Rodrigo Hipólito

JINGFANG, Hao. Vagabundos. Título original: Stray Skies. Trad. Agustín Alepuz Morales. Barcelona: Penguin Random House Grupo Editorial, S. A. U, 2020.

Desde que li Estrellas Rotas, tenho tentado me aproximar mais da recente ficção científica chinesa. Nesse interesse, Vagabundos é a primeira narrativa longa, de uma autora chinesa largamente reconhecida, que eu termino. Tive percepções e sentimentos conflitantes com essa leitura. Mas, antes desse tipo de comentário, cabe marcar alguns pontos:

– Apesar de a primeira frase desta resenha dizer “ficção científica chinesa”, seria inocente e preconceituoso considerar que haja um padrão através do qual pudéssemos estabelecer essa categoria. Esse padrão não existe. O território, a variedade cultura e as produções artísticas chinesas são muito extensos. Quaisquer recortes geográfico, geracional, cultural, religioso, temático ou estilístico, tornaria inútil a expressão que abre este texto.

– É provável que haja parâmetros críticos mais adequados para pensar a experiência de leitura desse e de outros livros escritos por chineses, do que os que eu usaria para pensar as narrativas de ficção científica brasileiras. Acontece que eu desconheço esses parâmetros.

– Eu li tão pouca coisa de autoria chinesa, que não me arrisco a puxar conexões específicas para uma análise mais fria. Isso significa que os parágrafos a seguir são impressões das quais eu posso discordar daqui, sei lá, meses.

***

Minha experiência de leitura com Vagabundos foi arrastada. Após os primeiros capítulos, tive a sensação de passar por uma longa espera. Mas, ao final, tivesse minha atenção despertada. Esse despertar foi instigante o suficiente para que eu repensasse o tempo de espera. Ainda assim, repensar essa espera não significa que eu tenha passado a gostar de tê-la vivido.

Vagabundos se passa, quase inteiramente, na Cidade Marte. Com a mistura de elementos utópicos, ambientes virtuais, exploração espacial, ameaças naturais, intrigas políticas e jogos de guerra, Hao Jingfang conta histórias para pensarmos conflitos geracionais, formação política, militância, sistemas de produção, o futuro da internet, a diplomacia entre potências e a passagem da adolescência para a vida adulta. Há mais elementos e mais discussões naquelas 400 páginas, mas esses já engrossam o caldo.

Vagabundos é um ficção científica de peso e eu não estranharia caso venha a tornar-se um clássico. Isso não a impede de ter problemas. Na minha experiência de leitura, houve muito desconforto com relação a certo conservadorismo. As personagens me pareceram dessexualizadas, descarnadas, tradicionalistas, exemplares de uma moral baseada em ideais puros. Não pude me livrar da percepção de que lia cenários e corpos higienizados, nos quais não poderia haver a textura da pele, o cheiro do suor, os fluidos da carne.

Tenho muita dificuldade de aceitar uma concepção de futuro em que a vida romântica e as sexualidades estejam em planos sem importância. Mais que isso, tendo a perder o interesse por futuros imaginados, quando eles refletem e naturalizam o puritanismo da minha época. Se as normas comportamentais do século XXII forem as mesmas da década de 1950, eu prefiro abandonar aquele futuro.

Mas, Vagabundos não se reduz a esses pontos negativos e somente os comentei por terem atravessado a minha leitura. No início do livro, compreendemos que Marte foi colonizado e suas relações com a Terra se tornaram conflituosas até gerarem uma guerra. Marte se manteve independente e os dois planetas cortaram contato por dez anos.

A retomada diplomática somente se deu quando Cidade Marte conseguiu estabilizar sua estrutura social, desenvolver suas próprias tecnologias, reconstruir seu aparato militar e, assim, ter alguma moeda de troca.

Apenas uma nave, Marterra, faz o trajeto entre os dois planetas. As trocas efetivas ainda são recentes e restringem-se a tecnologia marciana por suprimentos terráqueos. A primeira missão de contato entre habitantes de ambos os planetas está para terminar. Um grupo de estudantes, enviado ainda no começo da adolescência para a Terra, retorna à Marte junto de uma comissão de autoridades e cientistas terráqueos. Haverá uma grande feira para apresentar a cultura e as tecnologias marcianas e há expectativas de que as trocas efetivadas ajudem Marte a solucionar os problemas de suprimentos, que são a principal barreira para a vida no planeta vermelho.

Após esse início, nós acompanhamos a protagonista, filha do líder de Cidade Marte desde o final da guerra. As experiencias pelas quais ela e seus companheiros passaram na Terra capitalista colocará dúvidas sobre a liberdade e o autoritarismo no regime marciano.

Os jovens e adolescentes de Vagabundos se fazem perguntas simples sobre democracia, liberdades individuais, liberdades coletivas, responsabilidades social e ecológica, engajamento e organização política, antagonismo e privacidade. Apesar de serem questionamentos simples, eles refletem muito bem as discussões em torno do futuro e da validade de propostas socialistas e comunistas, assim como da crueldade dos embargos econômicos que grandes potências infringem a países que não optam pela desigualdade própria do livre mercado.

O direito à informação e às produções artístico-culturais está no centro da narrativa de Vagabundos. A protagonista é uma dançarina e divide o foco da primeira metade do livro com um artista documentarista. Os conhecimentos tecnológicos são sempre apresentados de modo a percebermos que suas realizações são interdependentes da construção cultural.

Em Marte, tudo o que é produzido deve ser disponibilizado na nuvem de dados para livre acesso. No entanto, há regulação de informação pelo governo. Essa regulação somente se torna nítida para os jovens intercambistas quando retornam da Terra. É curioso perceber o crescimento desses jovens até notarem que os processos pelos quais passam não são nenhuma novidade e que a história se repete.

Vagabundos é um ótimo romance para abrir discussões sobre os futuros que desejamos para nossos regimes políticos. Apesar dos problemas que indiquei acima, é gostoso ler uma história em que não há receio de explicitar esses tipos de discussões sem cair na chatice de longos discursos filosóficos. Vagabundos não apela para o tom professoral, mas detalha os processos de formação política, que são cada vez mais necessários, não apenas para jovens.

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