[conto] Como abraçar sem se perder no olhar

Imagem de capa. Paisagem. Conto. Mar. Linha do horizonte.

Imagem de capa. Sem título. Rodrigo Hipólito. Fotografia. 2013. Linga do horizonte no mar, com céu nublado e fina faixa iluminada por uma faixa de sol, na horizontal, no meio da imagem. Logo após a faixa de luz, há a silhueta de um navio.

Texto de Fabiana Pedroni e Rodrigo Hipólito

No reino Pingouin, para falar ou ser ouvido, antes era necessário ser abraçado. Esse era um gesto de reconhecimento entre as partes, por vezes inconsciente, do início de um discurso. Toda audiência prescindia da demonstração de que falar e ouvir eram também gestos corporais de entendimento.

Há desde abraços demorados a toques de corpo rápidos e sem intimidade. A variedade de abraços seguia a variedade de relações e as necessidades das diversas localidades do reino. Na região mais próxima do sol, durante uma década de secura e calor extremos, popularizou-se mesmo o abraço de cabeça. A prática foi abandonada com o retorno da umidade, mas, permaneceu o exemplo de que há poucos limites quando se quer abraçar.

Conta a lenda que, durante o reinado de Pingu, a normativa, que com o tempo deixou o âmbito da norma para o hábito, foi suspensa. O rei Pingu não sabia abraçar. Como não sabia? Pois era isso! Não sabia, não conseguia, sentia-se incapaz. A princípio, poderia ser uma fobia, mesmo que não houvesse uma específica fobia do abraço.

Fobia seria o termo correto? Poderia apenas ser um medo generalizado. Corriam histórias populares, nenhuma delas documentada, de que alguns poucos antecessores de Pingu foram feridos durante o ato do abraço. Outra explicação, própria dos súditos impacientes ou mais experientes, era a de que se tratava de uma simples falta de gosto.

A despeito da revogação de tão longeva tradição e de sua profunda e inegável incapacidade, Pingu desejava abraçar.

Ao seu conselheiro, um dos poucos amigos dos quais o rei não guardava ressalvas, Pingu descrevia O abraço:

— Eu me aproximo, o outro se aproxima e estende os braços — e gesticula, como se essa descrição fosse das mais difíceis de compreender. — Quando penso em estender os meus, não consigo… meus olhos não deixam. Eu vejo um corpo inclinado, a pele esticada, os músculos tensionados, os ossos dobrados, as junções, o ranger da matéria, o sangue pulsando, as hemácias deslocadas, o oxigênio que corre, outras moléculas por mim inomináveis, presas em gordura, os prótons, os elétrons e… Vem o pavor! Porque tudo isso me encosta antes que eu possa ver a imagem.

O conselheiro matutou o problema de Pingu por mais tempo do que alguém do reino jamais pensara em um só problema. Sem alcançar uma cura ou solução, ele concluiu que a resposta não estaria em Pingouin. Foi uma demonstração de coragem e amizade que emocionou a todos, quando o conselheiro decidiu sair em viagem para pesquisar.

No dia em que o conselheiro atravessou as montanhas floridas que circundavam Pingouin e sumiu de vista, muitos súditos guardaram rancor de seu rei. O conselheiro era querido de todos e aquela era uma missão que sabiam ser torturante. Cada dia que o conselheiro passasse fora do reino, era um dia longe dos braços que o queriam perto.

Depois de muitas tentativas de abraços em filhotes de cães e guanacos, Pingu estava cansado. Por mais fofos e alegres que fossem os pequenos peludos, aqueles eram apenas exercícios de meia-vida para tentar integrar-se ao seu povo e sentir-se em casa. Pouco adiantava. Pingu não era capaz de travar um conversa que fosse considerada educada ou saudável. Como receber alguém para um almoço ou café e um simples bom dia se tornar uma ameaça pela ausência do abraço?

Assim foi a relação entre Pingu e seu povo, durante mais de um ano, uma quase guerra. Pingu se isolava e sabia que a revolta somente não estourava em Pingouin por força da memória do conselheiro. Mas, Pingu amava o seu povo, ainda que não pudesse abraçá-los. Ele não queria o reino triste e consumido em ranço. Pingu decidiu fugir.

Na noite iluminada pelos campos de capim lunar, com a estrada colorida pela migração dos pirilampos azuis, amarelos e lilases, Pingu escapou de sua terra. Foi a decisão mais difícil que tomou em toda a sua vida, mas se sentia bem por conseguir demonstrar um comportamento que considerava justo. Pingu acreditava que o exílio era a única solução para aqueles que são incapazes de envolver o outro.

Ele estava errado e isso deve parecer bem evidente. Com o desespero e o cansaço, ele teria seguido uma estrada das mais tortuosas. Talvez ele encontrasse um novo lar, com outras regras e outras tradições. Não é exagero dizer que ele poderia construir outro lar e ser servo de outro povo. Essas possibilidades, no entanto, esvaíram-se quando Pingu sobrou a curva de saída do Vale do Aconchego.

Sobre um pequeno monte coberto de grama-de-cheiro, ele viu uma estranha carruagem. O veículo era colorido e iluminado por uma série de lanternas penduradas no beiral do que parecia ser um telhado. Mais do que uma carruagem, aquilo era como uma casa sobre seis paredes rodas. As janelas estavam iluminadas e as portas laterais estavam abertas.

Soltos na base do morro, pastavam os maiores guanacos que Pingu já vira. Pescoços longos demais, jubas volumosas demais. Eles não eram das proximidades de Pingouin.

Com cautela, Pingu circulou a casa-carruagem e ouviu as vozes. Em volta de uma fogueira, um grupo animado parecia discutir. A discussão logo parava e alguns se moviam, dançavam, trocavam de lugar. Alguns falavam rápido e depois devagar. A entonação das vozes era estranha e, em certo momento, todos pareceram se mover como se tivessem fumado raiz-do-sonho. Isso não era possível, pois, em seguida, seus movimentos voltavam ao normal.

Assustado, Pingu pensou em se afastar, antes que fosse visto. Falhou. No primeiro passo para trás, Pingu tropeçou e rolou e rolou e rolou até bater as costas nas patas do guanaco gigante. Quando o bicho abaixou a cabeça para encarar se desastrado agressor, ouviu o grito de medo do coitado.

Pingu se levantou num salto e correu e correu e correu até bater de frente com alguém e ser envolvido por braços fortes. A aflição veio de uma vez e, por pouco, não se transformou em ira. Com as ideias desconjuntadas, Pingu se debateu até se livrar daquele abraço e estava prestes a recorrer à violência. Felizmente, a voz era conhecida:

— Desculpe! Desculpe! Desculpe! Meu amigo! Depois de todo o esse tempo, eu não pude controlar.

Era o conselheiro. Ele estava de volta e junto dos estranhos da fogueira. Pingu olhou seu amigo por um longo tempo, sem pronunciar um oi. O susto já havia passado. O que segurava a fala de Pingu era o maior desconforto que já sentira. Ele nunca desejara tanto um abraço. Ainda assim, não conseguia. Chorou.

O conselheiro se aproximou devagar e nem mesmo estendeu a mão para tocar o ombro e confortar seu amigo. Sob o olhar do grupo de estranhos e dos guanacos gigantes, ele sorriu e mudou a vida de Pingu:

— Eu demorei, mas eu encontrei a resposta. Quando eu tentar explicar, vai parecer que não faz sentido. Só que, eu peço que confie em mim. Nessa longa viagem eu encontrei um jeito de criar mundos dentro de mundos, de libertar corpos presos em corpos. Eu acho que nosso povo vai gostar de conhecer o teatro.

.

.

.

.

.

.

.

.

.

Um pensamento sobre “[conto] Como abraçar sem se perder no olhar

  1. Pingback: [texto de processo] Diferentes modos de se estruturar a ideia de um texto – NOTA manuscrita

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s