[texto de processo] Diferentes modos de se estruturar a ideia de um texto

Texto de Fabiana Pedroni

Você já deve ter ouvido a expressão “o pior paciente é o médico”. Recentemente, descobri uma nova variante desta expressão “o pior escritor é o educador”. Depois de muito ensinar e trabalhar com escrita criativa, desbloqueio criativo e processo criativo, me vi caindo nas pequenas armadilhas cotidianas do processo de escrita.

Este é um texto sobre processos de retorno. Quando se cai nesta armadilha que lhe coloca com medo da folha em branco, por que não retornar para textos já escritos? Você pode retornar e se perguntar como iniciou aquele texto, como estruturou as deias iniciais, quais decisões precisou tomar para que as ideias ganhassem corpo e como o texto se desenvolveu a partir dessas decisões.

Essas perguntas e esse autoconhecimento são necessários para que você não caia nas armadilhas da folha em branco. Ela lhe seduz porque diz “há uma infinidade prazerosa de possibilidades a se construir”, ao mesmo tempo em que lhe amedronta com a mesma infinidade.

O que vocês verão aqui são dois recursos que utilizei, durante a escrita da minha dissertação, de título “A orquestração do ornamento no Beatus de Facundus“. Agora, retomo alguns desses recursos, na luta criativa da tese. Os dois primeiros esquemas mostram o encadeamento e a visualização de ideias que estruturaram o capítulo 2, “As camadas da imagem ou Por que livros precisam de sobrenome”.

Minha dissertação analisa o trabalho da ornamentação em manuscritos medievais, mais especificamente, o Beatus de Facundus, manuscrito de 1047, encomendado pelos reis de Leão e Castelo, Fernando I e Sancha.

Fotografia. Anotações. Manuscritos. Escrita.

Fotografia de caderno de anotações. Página em branco, sobre a qual estão anotados esquemas com caneta preta. Da esquerda para a direita, a palavra semente aponta setas para manuscrito medieval e semeadura, que aponta para Muda, que aponta para Beatus e Transplante de mudas, que aponta para Tomateiro, que aponta para Beatus.

Fotografia. Anotações. Processo de escrita.

Fotografia de página em branco, com anotações em caneta preta. A mesma sequência de termos da imagem anterior, com uma série de pequenos comentários sobre cada um dos termos e passagens, anteriormente indicadas pelas setas.

Usar esquemas, assim como mapas mentais, ajuda a criar hierarquias de informações e uma sequência narrativa. Aqui parte-se de uma ideia geral, contida na semente para a especificidade do que dela brota e cresce. Em meio a tudo que constitui um manuscrito medieval, há características que definem a família de manuscritos, conhecida como Betus (ou Beati, no plural). Das 34 cópias conhecidas desta família, há determinados elementos que distinguem o Beatus de Faundus das outras cópias.

O importante, aqui, não é exatamente a teoria construída na dissertação, mas perceber que, no processo de escrita, não é necessário abandonar sua identidade de escritor.

Como eu poderia falar de manuscritos medievais sem reconhecer a importância dos causos na minha formação como narradora? Como eu compreenderia o trabalho de raspagem e de curtir da pele de caprinos para formar páginas de pergaminho de alta qualidade se eu negligenciasse minha experiência caipira? Por que esquecer que já plantei tomates na roça, quando preciso descrever um manuscrito medieval?

São essas relações entre escrita e processo criativo que nos permitem não ter medo da folha em branco. O que impulsiona a sua criatividade? Quais são as suas vivências?

É muito comum quando vamos escrever um texto acadêmico, sobretudo, esquecer de si mesmo, de suas referências. Mesmo que saibamos que a neutralidade é um mito, insistirmos em nos afastar da nossa própria escrita.

Nem tudo precisa ser sobre você, mas tudo terá você

Essa frase de efeito pode parecer brega, mas ela nos ajuda a entender a importância do processo criativo na organização de ideias. Sem essa organização, ficamos presos dentro do labirinto da infinitude da folha em branco, afinal, ela não nos dá nenhum ponto de partida.

Mas, não só de esquemas e mapas se constrói uma ideia. Cada um terá um processo diferente e gostará de um modo de partida para a escrita, de algo que lhe faça mais sentido.

Junto dos esquemas, na dissertação, trabalhei com textos curtos, contos e crônicas. Aqueles textos tinham duas funções nítidas para mim:

– Primeiro, desarmar meu medo da escrita, porque a escrita literária me daria o conforto que, muitas vezes, a escrita acadêmica não fornece. A discussão da dureza da escrita acadêmica é extensa, mas, vocês já devem ter notado que subvertemos essa dureza aqui no blog.

– Segundo, os textos curtos conseguem sintetizar as ideias centrais de um texto a ser desenvolvido, mas, sem a pressão que um resumo pode causar.

Trata-se de textos “que não são pensados para ‘acrescentar discurso’, mas para recapitular e relacionar questões que são ditas de modo muitas vezes distantes de nossa vivência em tempos ‘contemporâneos’. Esses textos necessitam de uma leitura própria da literatura, aquela que não soma as partes e dá resultados, mas que valoriza as lacunas e a imaginação, necessárias para uma inventio produtiva” (PEDRONI, 2016, p.191).

Abaixo, um esquema do capítulo 03, “Como abraçar uma máquina: o ornamento como engrenagem da imagem”, que compõe, na verdade, a maior parte da estrutura dissertativa sobre o ornamento e suas funcionalidades. Apresento, também, o texto que deu início à organização. Esse texto, depois, foi retrabalhado e publicado aqui no Nota, caso queiram fazer o comparativo.

Fotografia. Anotações. Processos de escrita.

Fotografia de página em branco, com anotações em caneta preta. No canto esquerdo superior, a palavra Máquina aparece sublinhada. No restante da página, conceitos-chave são definidos em frases curtas e ligados, por setas, a outros conceitos-chave, também seguidos de definições curtas.

Como abraçar sem se perder no olhar
No reino Pingouin, para falar ou ser ouvido, antes era necessário ser abraçado. Um gesto de reconhecimento entre as partes, por vezes inconsciente, do início de um discurso. Toda audiência precedia da demonstração de que falar e ouvir eram também gestos corporais de entendimento. Conta a lenda, que durante o reinado de Pingu, a normativa, que com o tempo deixou o âmbito da norma para o hábito, foi suspensa. O rei Pingu não sabia abraçar. A princípio, poderia ser uma fobia, mesmo que não houvesse uma fobia específica ao abraço (ou seria um medo generalizado, pois alguns poucos antecessores foram feridos durante o ato, ou ainda, a simples falta de gosto).
A despeito da revogação de tão profunda tradição, Pingu desejava abraçar. A seu conselheiro, um dos poucos amigos dos quais o rei não guardava ressalvas, ele descrevia O abraço: “Eu me aproximo, o outro se aproxima e estende os braços. Quando penso em estender os meus, não consigo, porque meus olhos não deixam. Eu vejo um corpo inclinado, a pele esticada, os músculos tensionados, os ossos dobrados, as junções, o ranger da matéria, o sangue pulsado, as hemácias deslocadas, o oxigênio que corre, outras moléculas por mim inomináveis, presas em gordura, os prótons, os elétrons e… apavoro-me, porque tudo isso me encosta antes que eu possa ver a imagem”. Depois de muitas tentativas de abraços em filhotes de cães e guanacos (exercícios de meia vida para tentar integrar-se ao seu povo e sentir-se em casa), seu conselheiro disse-lhe: “Apenas feche os olhos e veja o abraço-ato”.

Por fim, um pequeno texto que corresponde ao trabalho do capítulo 05, “A orquestração do fim do mundo”.

Sobre as especificidades da matéria:
Tomei uma imagem medieval, feita em pergaminho, deslumbrei-me com a textura da página e resolvi emoldurá-la. Comprei, com seu José, a moldura mais bonita da loja, aquela toda trançada, que mais parece a grade da janela do meu avô. Fiz dela um quadro e preguei na parede da sala. Não entendi muito bem quando minha prima disse que isso parecia uma aberração, mas eu não queria comprar mais um busto de gesso ou alugar uma performance por um dia.

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