[resenha] Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, de Ana Paula Maia

Imagem de capa. Resenha. Ana Paula Maia. Zeng Fanzhi.

Zeng Fanzhi, Man and meat, óleo sobre tela, 1993. Em tons de vermelho, rosa que lembram carne fresca, várias figuras estilizadas de pessoas manipulam carcaças de animais. Todas as pessoas têm olhos bem abertos, vestem roupas brancas e estão sérias. Na parte debaixo da pintura, dois tigres mordem uma carcaça e um terceiro tigre observa uma mulher, que é figura de destaque.

Texto de Rodrigo Hipólito

MAIA, Ana Paula. Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos: duas novelas. Rio de Janeiro: Record, 2009.

Enquanto escrevo este texto, acontecem algumas greves e protestos de garis, tanto no Brasil quanto fora. É bom que a cidade respire um pouco do que ela produz de podre. Quando as pessoas que fazem a sociedade funcionar decidem parar, mesmo por um curto tempo, a estrada errada que a humanidade escolheu brota sob nossos pés.

“Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” é composto por duas novelas, a que dá título ao livro e “O trabalho sujo dos outros”. Elas compõem uma trilogia chamada “Saga dos brutos”, com outro livro de Ana Paula Maia, “Carvão Animal” (2011). São três histórias com personagens e cenários impedidos de fingir que estão fora desse caminho corrosivo que o mundo humano trilha.

A primeira história apresenta Gerson e Edgar Wilson, personagem que ressurge em outras narrativas da autora. Eles matam porcos em um frigorífico precário, em um subúrbio quente qualquer. “Qualquer” deve ser a palavra certa. Esses trabalhadores e esses lugares são “qualquer coisa” com a qual nós nos acostumamos de um jeito cruel. A crueldade não está apenas nas atitudes dos personagens, que mentem, perseguem, matam e esquartejam. Perceba que a aceitação de que esses acontecimentos e modos de vida sejam, em parte, reais, torna a leitura um ato de crueldade compartilhada.

Ao mesmo tempo, é esse compartilhamento que nos permite compreender a ética das relações emotivas desses assassinos. A ideia de que é aceitável “fazer o que é preciso” permeia nossas ações quotidianas, mesmo quando não temos que decidir entre o nosso rim e o de outra pessoa.

Um dos riscos desse tipo de experiência de leitura está na individualização da violência. Quando deixamos que o foco da leitura se feche sobre a necessidade de os personagens serem cruéis, ficamos mais tranquilos por encontrar uma justificativa para o fato de que gostamos deles. Gostar de Edgar Wilson pode fazer com que nos sintamos meio culpados [caso você se identifique com esse tipo de personagem, procure ajuda]. A explicação de que ele apenas responde ao ambiente encobre uma parcela dessa culpa.

Não é um lago de enxofre como no inferno. É pior. O chorume é o fim de todas as coisas. Restos de comida, resíduos tóxicos e cadáveres insepultos terminam ali. Erasmo Wagner teve um primo assassinado e deixado naquele mesmo lixão. Morto por engano. Quando olhava para o lago, balbuciava uma breve oração. Chorume é um choro interminável e maldito. São lágrimas deterioradas de olhos flagelados.

A segunda novela do livro, “O trabalho sujo dos outros”, pode te ajudar a sair desse buraco. Isso não significa que você ficará bem. Fora do buraco, você tem a chance de perceber o panorama do qual faz parte o “fazer o que é preciso”.

Com  Erasmo Wagner, Alandelon e Erivardes, nós acompanhamos o trabalho de garis, quebradores de asfalto e desentupidores de esgoto. Sem o trabalho desses sujeitos carimbados como brutos, burros e socialmente passivos, todos que vivem na cidade são obrigados a cheirar sua condição de animal.

Erasmo Wagner não apenas é consciente da importância do seu trabalho e do quanto o modo de vida da cidade é estúpido e desprezível, como reverte a lógica que tenta humilhá-lo. Os problemas que ele encara não são cheirar como lixo e recolher o resto das vidas que desprezam seus próprios dejetos. Os problemas são ser tratado como lixo, não ganhar o suficiente para cuidar da própria saúde bucal, observar a degradação física de seu irmão em outro emprego feito para matar com sofrimento, conviver com as memórias de uma vida que fazem com que recolher o cadáver de um menino seja apenas mais um item na lista de desgraças. O problema para Erasmo Wagner é que a greve dos garis não vai funcionar como poderia. Haverá um acordo, ele não será beneficiado, o trabalho será intenso e toda aquela montanha de lixo acumulado será queimada e empesteará o ar do seu bairro, onde já cidade já acabou.

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