[texto de processo] Armadilhas editoriais

Texto de Rodrigo Hipólito

É engraçado, e meio triste, pensar que, em 2022, muita gente ainda cai no golpe de pagar para publicar o próprio livro. Isso não é algo surpreendente. Afinal, sempre há novas pessoas desejosas de ter sua primeira publicação. É comum que quem fique inebriado com a possibilidade de lançar seu primeiro livro também esteja vulnerável ao fetiche do objeto impresso.

O golpe segue sempre a mesma base. Você recebe um e-mail ou indicação de uma suposta editora. A propaganda faz parecer que é normal você “investir” para cobrir os custos de edição, revisão, impressão e distribuição do seu livro. Golpistas jogam com o sentimento de urgência que domina quem já possui um original redigido. Sem pensar muito no assunto, você acredita que o fato de seu livro estar impresso, com ISBN e o logo de uma editora na capa será o suficiente para que as pessoas se interessem e leiam a sua história. É óbvio que não funciona assim. Mas, todo o golpe só funciona por impedir que a vítima perceba o óbvio.

Você paga o valor indicado. A suposta editora faz uma capa com banco de imagens, insere seu original em um modelo de diagramação simples, imprime o número de cópias que será enviado para você, embolsa o restante do dinheiro e segue para a próxima pessoa desavisada. Seu texto não foi editado, não foi revisado, o livro não será distribuído, tampouco propagandeado, resenhado e, provavelmente, não será lido. Você pagou, digamos, dois mil reais para ter dez cópias impressas do seu manuscrito com uma capa fuleira, com ISBN e o logo golpista.

Lâmpada quebrada. Armadilhas editoriais.

GIF animado em preto e branco de lâmpada caindo sobre uma ratoeira que desarma e quebra a lâmpada.

Isso evidencia o que você perdeu. Mas, há algo ainda mais óbvio: não faz sentido pagar para trabalhar. Foi isso que você fez. Você trabalhou para construir e redigir uma história. Você pegou o fruto do seu trabalho e pagou para entregá-lo para outras pessoas fazerem nada com ele.

Imagine o que você pensaria se recebesse propostas como: Pague para limpar a minha casa! Pague para que eu coma a sua comida! Pague para atender o telefone dez horas por dia! Pague para capinar meu quintal!

Pois é. Não faz sentido. Mas, se o seu sonho mais intenso fosse faxinar casas, ter sua geladeira esvaziada por estranhos, passar o dia resolvendo problemas dos outros por telefone ou capinar terrenos abandonados, eu te garanto que apareceriam pessoas dispostas a te dar um golpe.

Eu recebo esse tipo de e-mails de supostas editoras desde antes de decidir levar a escrita de ficção a sério. Logo que comecei a publicar artigos acadêmicos, vieram os e-mails com propostas para pagar para inserir meus textos como capítulos de livro. É outro tipo de golpe e, por mais surpreendente que pareça, mais eficiente que o primeiro.

Gente envolvida com pesquisa acadêmica costuma respirar o desespero por produtividade todos os dias. Sob a constante pressão para ter pontuação no Lattes ou exibir os resultados de suas pesquisas para colegas, as pessoas envolvidas com pesquisas caem nesses golpes com muita facilidade. Se a embriaguez do sonho é inimiga das pessoas iniciantes na escrita de ficção, quando falamos de gente da academia, o perigo é o ego.

Perdi a conta de quantas pessoas me contaram que já pagaram sessenta, cem, quinhentos, mil reais para lançarem um texto de quinze páginas como capítulo de livro. Pior é que, quase sempre, esses textos já foram publicados em atas de congressos ou periódicos científicos. Como continuo a receber esse tipo de e-mail quase semanalmente, imagino que o golpe ainda renda muito.

Há alguns casos que, talvez, você considere um pouco menos problemáticos. Mas, se pensar bem, não fogem muito da estrutura apresentada acima. Recentemente, tive um encontro com um desses casos. Antes de continuar, acho de bom tom deixar o aviso de que, caso você escreva ficção e seja iniciante, não será surpreendente se já tiver se envolvido em uma situação similar. Espero não te irritar.

Imagem de capa. Armadilhas editoriais. Gatos.

GIF animado com duas ilustrações de gatos, um branco e outro cinza, jogando peteca com duas raquetes. Ao final, a peteca é um passarinho amarelo. Fonte: Kirigra. Disponível em: https://gifer.com/en/DoG

Decidi que, esse ano, vou tentar ler mais materiais disponíveis no Kindle Unlimited. Isso inclui narrativas curtas auto publicadas e antologias organizadas por pequenas editoras. Quando eu faço a leitura de um conto lançado pela própria pessoa autora, sem vínculo com editora, coletivos, revistas especializadas ou sem a indicação de que houve um investimento em edição e revisão profissionais, eu desconsidero muito problemas. Erros de pontuação, ritmo truncado, personagens pouco desenvolvidas, frases mal estruturadas, profusão de adjetivos e outros defeitos irritantes tornam-se irrelevantes, ao menos quando o enredo me ganha. Eu sei que o trabalho não passou por edição e revisão profissionais e aquele é o modo mais simples que a pessoa encontrou para lançar sua obra no mundo.

Mas, quando leio uma antologia ou uma publicação com indicação de editora, eu espero que esses problemas não apareçam de maneira evidente. Não vou ser muito chato. Vai que se trata de uma editora pequena! Nesse caso, não vou esperar o que eu esperaria de uma empresa com mais recursos.

Abri uma antologia de autoria nacional, com contos reunidos em torno de um subgênero da ficção especulativa. A minha primeira expectativa era de que os contos que compõem essa antologia refletissem elementos do subgênero indicado no título. Infelizmente, a maioria dos textos fugia das características básicas que eu esperava e que sou capaz de reconhecer. Esse primeiro erro, por ser evidente, fez com que eu ficasse mais desconfiado.

O segundo problema era a falta de edição e revisão mais básicas. Posso dar um desconto por já estar irritado com o primeiro erro. Mas, a impressão era de que os contos foram inseridos no arquivo do modo como as pessoas autoras enviaram para a editora.

Alguns contos destacavam-se pela qualidade. Outros, mal permitiam passar da primeira página sem que a leitura se tornasse sofrida. Fui ao resumo biográfico das pessoas que integravam a antologia e a suspeita se confirmou: os textos com menos erros eram de pessoas com publicações anteriores e alguma experiência com a escrita; os textos com mais erros eram de pessoas que ainda não haviam passado por processos editorais profissionais.

O terceiro problema surgiu mais ao final da leitura. Pelo menos três dos contos apresentavam graves problemas relativos às suas mensagens. Uma das histórias era de uma misoginia tamanha, que me fez considerar que algumas das pessoas que integravam a antologia nunca devem ter lido o material completo. Se o fizeram, foram desatentas, pois teriam pedido para que seus nomes e textos fossem retirados. Outro conto poderia ter como título algo como “A esquerda tuiteira vai sair da internet para te matar e é melhor você reagir com antecedência”.

Mas, por que eu enquadraria essa antologia como parte de uma espécie de golpe? Não é uma conclusão um pouco pesada e, talvez, injusta? Não poderia tratar-se apenas de falta de experiência das pessoas envolvidas com edição e com a gestão da editora?

Enquanto você não usa as fragilidades dos outros para explorar sua força de trabalho ou surrupiar seu dinheiro em troca de um serviço não condizente com o propagandeado, tudo bem. Mas, se você oferece um serviço de edição e não toma os cuidados que se espera desse tipo de trabalho, a sua oferta é fraudulenta.

Vez ou outra, eu me deparo com algumas chamadas de trabalhos de pequenas editoras e desisto de enviar um original. Os motivos da desistência são vários. Um deles relaciona-se com o resultado que encontrei naquela antologia.

Alguns editais parecem muito corretos, repetem palavras e frases que demonstram profissionalismo, respeito à diversidade e responsabilidade social. Não é muito difícil passar a impressão de que estamos atualizados com relação às demandas progressistas do nosso tempo. Isso costuma gerar uma sensação de refresco e confiabilidade, principalmente quando estamos sob ataque. Se o governo do seu país trabalha para te matar, uma frase simples como “não aceitamos conteúdo transfóbico, racista, misógino e capacitistas” já pode ser o suficiente para você imaginar que está entre pessoas amigas.

Ao final do edital, no entanto, vem a parte que pode ser preocupante: o custeio da publicação. Editoras pequenas e independentes costumam ser honestas com relação aos seus limites e isso é bom. Todo o trabalho necessário até o lançamento dos textos aprovados em uma chamada de trabalhos pode depender de um financiamento coletivo. Isso pode incluir o pagamento das pessoas autoras, capistas e demais profissionais.

Mas, caso não haja indicação de pagamentos e os únicos serviços a serem custeados forem genéricos ou pouco transparentes, é melhor ligar o sinal vermelho com sirene. No passo seguinte, caso o edital aponte que as pessoas aprovadas se comprometem a apoiar o financiamento coletivo do projeto com X dinheiros, aproxime-se da saída de emergência. Se, junto desses alertas, a promessa for de que a antologia será lançada apenas em versão impressa, abra a saída de emergência e caia fora.

Caso o último item não exista e você decida ignorar o sinal vermelho e a sirene, é bom que você conheça as pessoas envolvidas com o projeto e ateste sua seriedade. Depois que você tiver injetado seu suado dinheirinho e o projeto estiver custeado, você terá que confiar. O que te garante que houve uma análise rigorosa dos textos recebidos? O que te garante que todos os textos passaram por edição e revisão? Exigiram edições e revisaram seu texto aprovado? Se não, que tipo histórias pode estar ao lado da sua, no livro finalizado?

Fui atrás do edital da antologia que comentei antes. Não era muito diferente do que descrevi. Pode não ter sido um golpe, mas falta de experiência. Podem ter faltado recursos. As pessoas podem ter sido desatentas com o conteúdo de alguns contos. Acontece. Vou chamar de armadilhas editorais. Como iniciante na escrita de ficção, só espero não cair em nenhuma dessas armadilhas. Deve doer.

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