[crônica] Autodepreciação não é consciência crítica

Imagem de capa. Angelica Alzona

Ilustração de duas pessoas com mantos clássicos, olhando para dois pés de alguém que desaparece em uma pequena nuvem no chão. Ilustração de Angelica Alzona. http://www.angelicaalzona.com/

Texto de Rodrigo Hipólito

Prefiro quando livros, filmes e quaisquer tipos de trabalhos de arte não se levam tão a sério. Trabalhos de arte podem ser profundas teses sobre modos de existir, construções de imaginária, disputas sociopolíticas, mídia e comunicação, historiografia, espiritualidade e por aí vai. Faz tempo que compreendo o fazer artístico como uma espécie de filosofia na prática.

Felizmente, nem todo o trabalho de arte precisa ser uma profunda tese sobre qualquer coisa. Quando a proposta aceita sua condição rasa, ela pode valorizar os aspectos que a tornam interessante, atraente, incômoda, divertida, crítica, dialógica e por aí vai.

É possível que haja uma supervalorização da complexidade nas artes. Ao mesmo tempo, sempre se ressalta que é melhor ser sintético. “Seja simples, jamais simplório”. Já ouviu ou leu algo parecido? O problema é que a realidade não funciona assim. Qualquer migalha pode ser objeto para um estudo denso. Porém, nem sempre é isso que nós queremos, desejamos e produzimos.

Se você se rende à pressão silenciosa para que todo o trabalho de arte seja uma revolução intelectual, emocional e sensória, pode passar pelo ridículo e não se dar conta disso. É como o vídeo em que a criança acredita que se afoga em um lago profundo. Esperneia, chora e se debate. Até que uma adulta a suspende e ela percebe que a água não bate em seus joelhos.

GIF animado criança chorando em água rasa

GIF animado de criança agarrada em uma corda, chorando, com medo de se afogar, até ser ajuda por uma adulta que a levanta e a deixa surpresa, pois a água é muito rasa.

Com a criança, em um vídeo de um minuto, isso pode ser fofo e engraçado. Com um livro de trezentas páginas, um filme de duas horas e meia e uma videoinstalação em dez salas, isso pode ser apenas chato e constrangedor.

Mas, há vezes em que estou no meio da leitura e penso que aquele trabalho poderia se levar um pouquinho mais a sério. Quando você faz piada consigo o tempo todo, isso não apenas soa deprimente, como retira o foco das mensagens que você quer passar e da forma como essa mensagem é passada. Esse tipo de postura, primeiro deturpa a forma e, depois, apaga a mensagem.

Recentemente, um livro me causou isso. É um livro que me haviam recomendado uma porção de vezes e eu já tinha lido e gostado de outras coisas do autor. Nada muito longo. Tinha passado por alguns contos e um livro curto. Gostei de tudo. Criei alguma expectativa com relação ao romance, não posso negar.

Não sei muito bem como explicar. A leitura seguia como o esperado. Os elementos que eu já gostava estavam ali. Mas, da metade para o final, a narrativa parecia querer me dizer que eu não deveria me importar com nada que acontecesse com as personagens. As frases perderam carne e gordura para que as cenas fossem ossos em ações aceleradas. A insistência na superficialidade tornou-se irritante ao ponto de eu querer terminar logo aquele relatório (ou roteiro do que poderia ser uma narrativa cativante).

Não fossem minhas experiências anteriores com trabalhos do mesmo autor, eu não teria terminado aquelas quase quatrocentas páginas. A gente desenvolve algum respeito pela pessoa autora quando temos boas experiências com seus trabalhos, e procuramos por qualquer base que nos permita gostar do que ela faz, mesmo quando desagrada.

Na maioria das vezes em que começo a ler uma história e ela me transmite essa sensação de roteiro frio, esqueleto de laboratório, eu apenas abandono. Infelizmente, é algo bem comum. Há muita coisa pra ler. Se a pessoa depreciou o próprio texto até deixar que ele fosse publicado como esquema de cenas narradas com tédio e pressa, talvez eu não devesse lhe dedicar a atenção da leitura.

Parece haver um medo de que a seriedade afugente o entretenimento. Aliás, mesmo o humor, para funcionar, precisa ser levado a sério. Muitas vezes, a pessoa que não sabe contar uma piada considera que ser engraçado é algo humilhante. A pessoa sente-se envergonhada, constrangida, apenas com a ideia de tomar uma atitude que gere risos, mesmo que essa atitude seja proposital. Isso faz com que a piada saia mal contada, sem expressão, esquemática.

A mesma coisa vale para quando você quer transmitir outras sensações, como medo, tesão, tensão, nojo, raiva, revolta ou calorzinho no coração. Até dá pra fazer tudo isso com esqueletos de laboratório. Mas, é bem mais complicado.

Autodepreciação não funciona como consciência crítica. Se você insiste em minimizar a capacidade expressiva do seu trabalho, chega um momento em que você não se importa com o que for publicado. Uma coisa é cortar trechos durante o processo de edição, com acompanhamento de outra pessoa, para que a narrativa ganhe dinâmica e valorize as mensagens que quer passar. Outra coisa é deixar de trabalhar conflitos e emoções complexas das personagens com a desculpa de que precisa valorizar as atitudes, de que o texto precisa ser mais ágil. Quando for assim, suas personagens apenas perderão relevância. Quem lê, não vai se importar caso elas morram, vivam, se casem, coloquem as roupas para lavar, matem um monstro, tornem-se um monstro, descubram novos mundos, curem-se de seus males, desistam ou insistam.

Muitas vezes, eu me encanto por algumas personagens por elas serem complexas o suficiente para que seja difícil compreender o que elas sentem. Quando elas são rebaixadas a um patamar simplório o bastante para tornar “inevitável” a identificação por parte do público, eu não sei se quero mais saber delas. Protagonistas mais rasas do que eu? Vai ser difícil me convencer de que eu devo conhecer suas histórias.

No fim das contas, tem um linha fina e vacilante entre não se levar a sério e levar-se a sério demais. No caso da segunda, você pode gastar duas mil páginas com emoções e situações que você acredita que sejam profundas, mas não passam nem das canelas da criança de pé. Sim, isso vai te deixar em uma situação ridícula. Na primeira opção, pode passar apenas a impressão de que você não tem capacidade para imaginar e escrever emoções e situações nas quais outras pessoas possam mergulhar. Eu tenho medo dos dois caminhos.

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