[resenha] A Cicatriz, de China Miéville (Bas-Lag livro 2)

Les Edwards. A cicatriz. 2018

Edward Miller (Les Edwards). Pintura de capa da edição de “A Cicatriz” da Subterranean Press. Acrílica sobre tela, 2018. Em primeiro plano, pequeno navio vem em direção de quem observa, com fumaça saindo de uma grossa chaminé, casco enferrujado e pessoa parada no parapeito. Ao fundo, cidade feita de milhares de navios, com seus mastros formando um horizonte montanhoso.

Texto de Rodrigo Hipólito

MIÉVILLE, China. La Cicatriz. Traducción: Manuel Matalvarez-Santullano. Ilustración de cubierta: Edward Miller. Madrid: La Factoría de Ideas, 2002.

Esse é o segundo volume da trilogia Bas-Lag. A história se passa logo após os acontecimentos de “Estação Perdido” (leia a resenha aqui). Mas, não seguimos os personagens do primeiro volume. Trata-se de um enredo novo. Não é necessário ter lido “Estação Perdido” para ler “A Cicatriz”. Ainda assim, eu sugiro a leitura em ordem de lançamento.

O primeiro livro é um marco da etiqueta new weird e há motivos para isso. Além disso, embora não haja informações e passagens estruturantes da trama de “A Cicatriz” que necessitem da sequência dos livros, isso modifica as relações subjetivas entre o livro e quem o lê. Isso não deve ser desconsiderado.

O emaranhado de conspirações e o absurdo carregado de descrições, que você encontra em “Estação Perdido”, deixa uma marca sensível. Essa impressão insistente é rememorada em “A Cicatriz”. E é a partir desse fantasma que China Miéville aproveita a liberdade de uma relação prévia para extrapolar a fantasia. Sem essa lembrança, a leitura pode capengar na dificuldade de assimilar o ritmo da prosa, ou até deslizar para fora do horror e cair no lodo do patético. O primeiro risco é maior na parte inicial do livro, o segundo, nos capítulos finais.

A maior parte da história narrada em “A Cicatriz” se passa no alto-mar. Estamos fora da cidade de Nova Crobuzon, mas, ainda no mundo chamado Bas-Lag. Pode ser interessante conhecer o mapa desse mundo ficcional para poder seguir com menos dificuldade a longa viagem. Há uma boa variedade de mapas e interpretações visuais de Bas-Lag por aí. Mas, ainda que não haja esse apoio, as descrições e orientações de Miéville são mais do que suficientes para que você consiga se localizar.

Mapa de Bas-Lag. Ilustração.

Ilustração de mapa de Bas-Lag. À esquerda, grande continente chamado Rohagi. À direta, parte de outro continente, chamado Bered Kai Nev. Entre os dois, mar com traços retos que marcam rotas, uma dezena de ilhas de tamanhos variados, rosa dos ventos na parte superior e título ornamentado na parte inferior, no qual lê-se Bas-Lag.

O protagonismo de “A Cicatriz” é dividido, principalmente, entre Bellis Gelvino (Bellis Coldwine, no original) e Tanner Sack. A primeira é uma linguista , especializada em línguas distantes, antigas ou tidas como perdidas. Ela está em fuga de Nova Crobuzon e planeja passar um tempo na colônia de Nova Imperium. Como estava envolvida com der Grimnebulin, personagem central dos acontecimentos de “Estação Perdido”, Bellis tem medo de que o governo a encontre.

Tanner Sack é um condenado, refeito, que foi enviado como escravo para Nova Imperium. Ele é reflexivo e demonstra domínio sobre conhecimentos tradicionais, além da capacidade de manter-se lúcido mesmo diante do horror. Sack está preso no porão do navio e Bellis em sua cabine. A viagem para Nova Imperium é longa, há paradas no caminho e muitas chances de algo dar errado.

Vou comentar alguns pontos que podem ser considerados spoiler. Mas, garanto que há tanta coisa interessante para ser dita, tantos detalhes, personagens e acontecimentos, que você não deixará de se surpreender por conta dessas revelações.

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O navio que leva as personagens para Nova Imperium passa por algumas dificuldades e é sequestrado por um grupo de piratas. Mas, não são os típicos piratas de histórias de aventura, ainda que tenham algumas de suas características. Depois de matarem o comando do navio, os piratas levam a embarcação e o restante de sua tripulação e passageiros para Armada.

Armada é uma cidade flutuante. Mas, isso não passa perto de resumir o que é descrito. Construída com milhares de embarcações sequestradas e modificadas, Armada é enorme; é uma cidade com bairros variados, culturas locais, parques, indústria, exército, aeronaves e uma extensa biblioteca repleta de exemplares raros.

Les Edwards. A cicatriz. 2002.

Edward Miller (Les Edwards). Pintura de capa da edição de Macmillan. Acrílica sobre tela, 2002. Ilustração em tons de azul e branco. Vista aérea de Armada, com o mar à esquerda e extensa cidade composta de navios a perder de vista à esquerda. Ao centro, observa-se uma aeronave sustentado por balões.

Em Armada, as pessoas são livres, apenas não podem abandoná-la. Essa aparente contradição entra em choque com os princípios observados em Nova Crobuzon. Lá, as pessoas são livres, mas estão sob o constante julgo da prefeitura, das milícias e da miséria.

Armada não segue os princípios de justiça de Nova Crobuzon. Se a primeira cidade condenou pessoas a tornarem-se escravas meio-máquinas (refeitos), a segunda as trata como iguais. Em Armada, Sack não será um escravo, ele terá trabalho e casa, e não será discriminado pela sua condição de refeito. Na cidade flutuante, Tanner Sack parece ter encontrado o seu lugar no mundo. Ele identifica-se como cidadão, desenvolve apreço por Armada e ganha o reconhecimento da sociedade, algo que nunca teve.

Do outro lado dessa narrativa, Bellis sente-se apenas como uma prisioneira. Ela também ganhou uma casa (muito mais confortável que a maioria, por sinal) e um emprego. Mas, ainda que seu fascínio pela extensa biblioteca de Armada supra parte das suas necessidades, ela não consegue deixar de sentir que foi separada do mundo “civilizado”.

Bellis estava em fuga do governo de Nova Crobuzon e pretendia esconder-se. Mas, dizia para si mesma que essa situação era provisória e que ela voltaria para sua cidade. “Sua” cidade. Essa percepção de que Nova Crobuzon a pertencia é fundamental para compreender suas emoções contraditórias e o espelhamento proposto pela figura de Tanner Sack.

Enquanto Sack encontra sua cidadania, Bellis acredita ter perdido a sua. Ele estava na condição de prisioneiro e escravo, por isso, sente-se liberto. Ela usufruía da liberdade banhada em significado pela exploração dos refeitos, por isso, sente-se prisioneira e escravizada. Mesmo que compreenda o quanto a vida em Nova Crobuzon era horrível, Bellis não pode apenas desligar o sentimento de pertencimento. Enquanto isso, Tanner debate-se diante das percepções de falhas na sociedade que o acolheu.

Sem soluções fáceis, Miéville nos conduz por esses questionamentos e insere os elementos que envolverão essas e outras personagens em uma trama muito maior e mais complexa. Conspirações, jogos de poder, motivações íntimas, disputas, revoltas sociais e exploração da natureza misturam-se com criações fantásticas delicadas, detalhadas e difíceis de imaginar.

O par que governa Armada, conhecido como Os Amantes, pôs em prática um plano megalomaníaco que necessitará da participação central de Bellis. Sempre interessada em escapar e retornar à Nova Crobuzon, ela se envolve em tramas políticas e confronta poderes que acreditava serem apenas lendas antigas.

Les Edwards. A Cicatriz. O caminhante da manhã. 2018.

Edward Miller (Les Edwards). O Caminhante da Manhã, 2018. Pintura em acrílico sobre tela que mostra uma batalha de navios. À esquerda, uma grande estrutura de navio rompe-se e deixa escapar uma explosão. À direta, navios menores em alta velocidade e outros afundando em último plano.

Armada atravessa o Oceano Inchado e vai em direção d’A Cicatriz. Para isso, precisam capturar uma besta mitológica e atravessar fronteiras inabitadas desde tempos antigos. Enquanto as personagens ganham novos interesses e transformam-se diante das situações-limite que enfrentam, nós conhecemos mais sobre a história de Bas-Lag. Há muita informação em “A Cicatriz”, o que pode fazer com que a leitura seja um pouco cansativa em alguns trechos. Mas, caso você tenha se deixado envolver por essa viagem, esses trechos serão como água gelada em um dia seco.

Os cenários e elementos de dieselpunk, biopunk e vaporpunk, presentes em “Estação Perdido”, continuam a ter peso para a história. Assim como no primeiro livro, temos uma cidade como personagem. Conhecer os bairros de Armada é algo instigante e já valeria o livro. Mas, a viagem de Armada, os demais lugares e culturas de Bas-Lag e as criaturas e espécies apresentadas tornam o absurdo ainda mais gratificante. Acrescente-se a isso as inevitáveis relações com as aventuras de pirataria, ficções de viagem fantásticas e movimento guiado por uma obsessão (o que faz a explicita referência à “Moby Dick”, de Herman Melville, presente em muitas análises e resenhas de “A Cicatriz”).

Até o momento de publicação desta resenha, “A Cicatriz” ainda não foi publicado em português. Mas, há a promessa de que seja lançado pela Editora Boitempo, responsável pela publicação de “Estação Perdido”. Quando isso acontecer, eu estarei na fila para ler essa tradução. Digo isso não apenas pelo óbvio desejo de ler a obra em português. Acontece que, em um paralelo com os desejos de Bellis, de um jeito meio confuso, eu quero voltar para Armada.

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