[transcrição] Como não cuspir para o alto

Foujita, Combate. gatos. 1940

Imagem de capa. Léonard Tsuguharu Foujita, Combate (gatos), de 1940. Museu Nacional de Arte Moderna do Japão, Fundação Foujita. Vários gatos brancos e rajados de castanho se engalfinham em diversas posições.

Transcrição do podcast Não Pod Chorar 32: Como não cuspir para o alto

Texto de Rodrigo Hipólito

Apresentação

E aí, gente perdida? Tá começando mais um Não Pod Chorar. Meu nome é Rodrigo Hipólito e este é um derivado do Não Pod Tocar. Aqui, nós contamos algumas desventuras da vida e pensamos em modos criativos de tentar lidar com elas.

Se você tá chegando aqui agora, o Não Pod Tocar é um podcast sobre teoria, história, crítica de arte e temas afins. Nós estamos presentes em todos os tocadores de podcast e nas plataformas comumente usadas para ouvir música, como o Deezer e o Spotify. Nós também disponibilizamos os nossos episódios no Youtube e você pode nos ouvir pelo site notamanuscrita.com. Lá, você também encontra a postagem original dos programas, com a descrição completa do episódio, com links para os nossos perfis pessoais e oficiais, além de tudo o que a gente comentar e essas diversas formas de nos ouvir.

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Pra manter a tradição dos episódios de Não Pod Chorar, enquanto a Fabiana conta histórias tristes, eu venho falar de coisas irritantes. Hoje, eu decidi falar não apenas de algumas coisas irritantes, mas sobre como lidar quando você é a pessoa irritante. No caso, essa pessoa sou eu mesmo. Nos próximos minutos, eu vou falar pra vocês sobre como não cuspir para o alto.

***

No primeiro dia de retorno ao trabalho presencial eu encrenquei com uma colega.

Era a primeira vez que eu pegava um ônibus em meses. Isso já havia me causado tensão suficiente. Mas, eu conseguia compreender o comportamento da maioria das pessoas que pegam os mesmos ônibus que eu. Diferente disso, estar em uma sala fechada, com pessoas com máscara frouxa, causava um efeito diferente.

Sem muito aviso, ainda que dentro do tema da conversa pré reunião, ela perguntou se eu e outro colega também estávamos tomando ivermectina pra prevenir COVID. Respondi de imediato e disse que aquilo não fazia sentido. Falei o que precisava falar. Tentei manter o tom de voz calmo. Falhei miseravelmente.

Depois da cena, fiquei meio mal. Não consigo evitar o constrangimento com essas situações. Não é que eu acredite que nós não devemos confrontar as pessoas quando elas dizem ou agem de modo absurdo. Talvez eu não consiga me explicar direito. Mas, eu vou tentar elaborar melhor.

Outro dia eu liguei pra minha mãe, a quem eu já visitava pouco mesmo antes da pandemia. Eu tinha ligado pra explicar que era melhor eu ir visitá-la depois de ter tomado a segunda dose da vacina. Esse era um dos motivos da ligação. O segundo motivo era pra ouvir o que ela quisesse dizer durante umas duas horas.

Acontece que a minha família sempre foi muito efusiva. A gente se excede até pra pedir um copo de café e isso sempre foi bem desgastante. Em menos de uma hora de conversa a gente já tava conversando aos berros. Raramente essas conversas gritadas são discussões de verdade. Mas, pra quem não conhece, pode parecer uma briga feia.

Duas semanas depois, fui visitá-la e consegui cumprir o objetivo de não ser tão exagerado.

É que isso sempre me incomodou e eu tento, desde o final da infância, evitar me comportar desse jeito fora de casa. Até o começo da vida adulta, eu tentava e falhava de um jeito muito pior do que as falhas de hoje. Demorou pra eu deixasse de ser um sujeito grosso e irascível com qualquer criatura que cruzasse meu caminho. Demorou, mas eu acreditava que havia consigo chegar em um ponto de mínimo autocontrole. Só que, talvez isso nunca funcione assim.

Eu tive o privilégio de ficar em casa durante a maior parte de 2020 e do primeiro semestre de 2021. Acho que fica óbvia, pra maioria das pessoas informadas e com um pingo de caráter, que a maior parte da população brasileira não teve a menor chance de se proteger do vírus. Pra essa maior parte da população, não foi possível se isolar, não foi possível ficar em casa, nada parou, a vida apenas seguiu com mais um medo, com mais um elemento da realidade que quer te matar.

As nossas rotinas definem boa parte da nossa percepção da realidade. É por isso que é difícil julgar como desleixo ou irresponsabilidade o comportamento de quem nunca teve uma chance. Esse tipo de postura só retira a culpa dos ombros de quem realmente tinha poder para decidir sobre o funcionamento da sociedade.

Mas, este não é um episódio sobre análise de política de saúde pública, ao menos não de modo tão extenso. O fato é que eu tive a possibilidade de fazer isolamento eu deveria ser menos emocionalmente burro ou descuidado na hora de encarar algumas situações de conflito.

Deveria? Será? Não sei. Fico meio perdido com relação a isso. Perdido e meio frustrado. É que eu me esforcei muito pra deixar de ser um bicho raivoso e não queria perder algumas das poucas qualidades que eu acreditava ter conquistado.

Já comentei, aqui, algumas vezes, sobre a minha infância e como o cenário daquela cidadezinha do interior de Minas era desolador, desprezível e violento. Acredito que aquele mundo tenha tido um papel central pra que eu fosse uma criança explosiva.

Naquele começo da década de 1990, a cidade tinha apenas duas escolas de ensino fundamental, uma pública e outra particular. A maioria das crianças ricas ou com espírito de rico, estudava na particular. É óbvio que as crianças não tinha muita escolha. Mas, havia muitas situações que faziam essa separação se tornar ainda mais marcantes.

Além do fato de serem somente duas escolas, o que já incentivava a competição, o pré-escolar acontecia para todas as crianças, ricas e pobres, na escola pública. Só que isso não significava que pobres e ricos dividissem a mesma sala.

Havia a sala das crianças ricas: uma sala espaçosa, bem iluminada e com cadeiras novas. Havia a sala das crianças pobres: no fundo do refeitório, pequena, abafada, com cadeiras quebradas e quadro rachado.

Essa separação era feita com muita naturalidade e a principal desculpa (pois sempre há desculpas), era de que as crianças separadas na salinha dos fundos eram as atrasadas, bagunceiras e intratáveis.

Durante um tempo, eu queria ter continuado naquela sala. Depois, eu fiquei muito grato por minha irmã mais velha ter batido o pé e me levado para a sala das crianças ricas. Lá havia materiais, atenção da professora, tanta bagunça quanto na sala das crianças pobres e quase nenhuma bronca.

A professora era carinhosa, mas as crianças ricas não.

Eu perdi a conta de em quantas brigas me envolvi. Não havia motivo, era apenas reação. É que também não dava pra manter uma conta das pequenas e grandes crueldades que aquelas crianças ricas cometiam.

Em outro Não Pod Chorar eu contei alguns acontecimentos pesados e pretendo não repetir aquele tipo de descrição. Então, não precisa parar a escuta, pois não vou colocar nenhuma cena de grande violência nos próximos minutos. Essa não é a intenção desse episódio.

Basta dizer que eu precisava sair nos socos e chutes com as crianças ricas toda a semana. Algumas vezes ficava mais sério, mas quase sempre terminava como começou.

Em uma dessas, uns três ou quatro garotos bem alimentados me arrastaram para a quadra vazia e tentaram me espancar. Felizmente, pra mim, eles não se saíram muito bem. Um deles terminou com o braço torcido, talvez quebrado, não me lembro. O ano já estava perto do fim e eu não precisaria encará-los novamente.

A partir da primeira série, eles foram para a outra escola e eu voltei para a sala das crianças pobres, onde fiquei até a quarta série. Isso foi bom. Eu já tinha ódio demais das crianças ricas pra conseguir aproveitar qualquer coisa se estivesse fechado junto delas.

Coisas boas e ruins acontecessem juntas. Dois anos depois, o município começou um projeto de saúde bucal para as crianças da escola pública e eu iria ao dentista periodicamente, pela primeira vez na vida. Eu fiquei ansioso, pois já tinha muitas cáries, dores e já tinha perdido alguns dentes de leite. Aquilo era uma coisa boa e, diferente das outras crianças da turma, eu não tinha medo de dentista, médico, agulha ou remédio. Os problemas seriam outros.

O programa de assistência exigia uma sala dentro da escola e só havia um espaço adequado pra isso na escola particular. De duas em duas semanas nós caminhávamos até outro bairro e esperávamos para seremos atendidos dentro da escola das crianças ricas.

Depois de limpar umas limpezas e duas obturações, eu precisei parar de ir.

Cada visita era uma briga diferente. Uma delas, com um dos meus antigos agressores de pré-escola, foi bem feia. Passei os anos seguintes tenso a cada vez que havia o risco de encontrá-lo na rua. O moleque cresceu e foi virando um filhote de rinoceronte. Não dava pra brigar com aquilo. Mas, essa não foi a pior.

Quando um grupo de meninas se juntou, arrancou e rasgou minha camisa e a enfiou na pia do banheiro feminino, o dentista saiu da sua sala e veio me dar uma bronca. Foi nesse dia que eu descobri a minha habilidade pra ofender. Eu xinguei o homem de cima abaixo e ele nunca mais aceitou me atender.

Algum tempo depois, aquele dentista parou a mim e a minha mãe na rua e reclamou com ela sobre o meu comportamento. Eu tava com nove anos e reclamei de volta sobre o comportamento dele. Minha mãe riu. Não sei se ela ainda se lembra. Mas, ela sempre ria quando falava sobre essa cena.

Eu expliquei pra ela o que havia realmente acontecido. A minha raiva tinha fundamento. Mas, nem sempre isso importa. Nem sempre a gente ganha alguma coisa batendo de frente e, quando você é mais fraco, você precisa ser mais esperto. 

Eu perdi o atendimento gratuito, ganhei um ranço enorme de dentistas e só voltei a fazer algum tratamento muitos anos depois.

Eu sei, eu sei, Essa ideia de que nem sempre a gente deve bater de frente pode encobrir uma série de práticas burras de acomodação e isso, quase sempre, só beneficia quem já tá por cima. A gente não deve deixar de bater de frente. Só que a gente não tem condição de fazer isso o tempo todo. Ninguém tem energia pra isso. Outra coisa é que a gente não precisa encarar todos os conflitos na solidão.

Revolta só funciona de modo coletivo. Revolta só funciona com camaradagem. Revolta só funciona quando a gente tem em quem confiar.

Eu demorei a entender que eu precisava estar ao lado de pessoas que quisessem e pudessem me proteger e me ajudar. Aos poucos eu também aprendi a tirar o máximo que eu puder de quem não vai me proteger, não vai me ajudar, mas continua a depender da minha fraqueza.

A vida seguiu assim e, hoje, depois de ter ficado tanto tempo isolado dos ambientes de convívio presencial, acho que eu vou ter que reaprender alguns comportamentos que já haviam se tornado instintivos. Isso não vale só pra minha autopreservação, mas pra não machucar quem eu quero preservar e pra não me desgastar sem necessidade.

Algumas conversas remotas já me indicaram que eu preciso tomar cuidado pra não agir com muita liberdade. Outro dia, em um grupo de discussão de literatura, eu demorei pra perceber que eu havia ligado o modo “combate argumentativo”, quando deveria ser apenas uma conversa leve e despretensiosa. Aquele é o jeito como eu discutia em casa ou no bar, depois de sabe-se lá quantas cervejas. Eu sinto saudades disso. Mas, aquelas pessoas na chamada, elas não estavam de verdade em bar bebendo comigo e eu não sei se nós seríamos de verdade um grupo de dividira uma mesa espontaneamente. Ninguém ali precisava nem tentar entender que eu não estava brigando, mas apenas empolgado e muito interessado em uma discussão que eu acompanho há anos.

Eu pedi desculpas depois. Mas, o constrangimento antigo reapareceu e não foi embora.

Algumas semanas antes, algo muito parecido tinha acontecido em uma reunião de pauta do Pindorama. A diferença das situações e muito grande. Apesar de os dois casos envolverem pessoas que eu não conheço presencialmente, nós já tivemos tempo de convívio o suficiente pra entender o que são dois gatos brigando e o que são dois gatos tentando se matar. A gente terminou a discussão com as mesmas discordâncias e com o mesmo carinho.

No primeiro caso, eu fiquei com a sensação de que eu vacilei, quando eu poderia só ter me desviado. Mesmo que fosse um assunto que eu conheço e que fosse fácil identificar os erros na base da discussão, eu não precisava tentar demonstrar que eu tinha razão diante de pessoas que eu pouco conheço. Não era realmente uma conversa de bar e ninguém ali tinha esse tipo de compromisso. Brigar para ter razão quando a razão não importa é como cuspir pra cima e ficar parado esperando a volta do cuspe.

O segundo caso é algo que se tornará mais necessário nos próximos meses. Esbravejar e brincar nas dentadas é algo que atiça a paciência. Isso era algo que eu já havia aprendido e vou precisar voltar a praticar. Isso é uma das coisas que o isolamento me fez esquecer. Eu preciso desses momentos catárticos de dedo em riste e copo na mão.

Essas situações me fazem pensar sobre os mecanismos de controle das paixões que estão presentes em quase todas as distopias ou utopias. Em Admirável mundo novo, de Aldous Huxley, por exemplo, as paixões são atenuadas pelo consumo de SOMA. E o desejo de ser anestesiado é algo que tenho lido e ouvido bastante. É que sentir e se preocupar cansa, mesmo quando a gente não consegue ou não pode agir. E eu entendo quem precisa se anestesiar pra poder continuar até o próximo porto seguro. Infelizmente, esse também é um mecanismo de controle muito forte.

O consumo de álcool é o exemplo mais marcante desse processo de anestesia da população. Aliás, essa é uma discussão bem complicada de ser travada nos campos progressistas e de esquerda. Afinal, pode parecer, pra muita gente, que criticar o consumo de álcool seria uma coisa conservadora. Principalmente aqui, no Brasil, a gente vinculou a crítica ao consumo de álcool e outras drogas com uma postura religiosa muito específica. Essa é uma justificativa fácil para não discutir, só que não é uma justificativa de fato.

O consumo exagerado de álcool e algumas outras drogas não afoga apenas as mágoas, mas qualquer ímpeto de superação e mudança. A anestesia é uma arma muito potente nas mãos de quem já possui o poder. Acreditar que a anestesia pode ser que a anestesia pode ser um exercício de liberdade festiva, nesse cenário, é no mínimo algo bem burro.

Em 1984, de George Orwell, a bebida como anestésico social aparece com o consumo de gin. Bebida barata e de má qualidade, mas que serve ao propósito. As pessoas bebem e reclamam que aquilo não presta. Mas, bebem do mesmo jeito. Nesse caso, nem é ficção.

Mas, anestesiar ainda não é o suficiente pra desviar e reduzir a vontade popular. A anestesia não impede que a raiva se acumule. Se você apenas anestesia, quando o corpo e a mente acordarem, as coisas explodem.

O controle das paixões precisa ser feito com a sua liberação de modo controlado. E, se eu não fui suficientemente explícito ainda, é bom dizer que o controle das paixões não é algo que se deva evitar. Se você não aprender a direcionar as suas próprias paixões, as estruturas a sua volta vão fazer isso por você.

Na trilogia Ceifador, de Neal Shusterman, uma inteligência artificial com poderes quase divinos foi encarregada de tomar a maioria das decisões coletivas da humanidade. É um cenário quase utópico e, com exceção do elemento central e perturbador que é a existência de uma agência independentes responsável pela morte deliberada das pessoas, tudo na vida poderia ser uma maravilha. Mas, mesmo sem a chance de ficar doente, passar fome, sentir dor ou não ter abrigo, a raiva e a insatisfação continuam a mover a vida de muita gente. A solução encontrada pela Nimbo-Cúmulo, que é essa super inteligência artificial, é permitir que algumas pessoas sejam infratoras, que cometam pequenas contravenções em ambientes controlados e, assim, consigam liberar emoções que a anestesia não mata.

Em “Androides sonham com ovelhas elétricas?”, de Philipp K. Dick, as pessoas possuem uma programação diária que envolve supressores e estimuladores de ânimo. Os sintetizadores de ânimo podem te fazer sentir mais raiva ou menos raiva. Em uma discussão com sua esposa, Iran, o protagonista do livro, Rick Decard, precisa tomar exatamente essa decisão.

– Engraçado, você nunca hesitou em pegar o dinheiro das recompensas que trago pra casa e comprar o que quer que chame a sua atenção de imediato. – Ele se levantou e se aproximou do console de seu sintetizador de ânimo. – Isso em vez de economizar, e assim a gente poderia comprar uma ovelha de verdade, pra colocar no lugar daquela falsa e elétrica lá em cima. Um mero animal elétrico… e eu ganhando todo dinheiro que posso, trabalhando cada vez mais, ano a ano. – Junto ao aparelho, ele hesitava entre escolher um supressor talâmico (em que poderia anular seu sentimento de raiva) ou um estimulador talâmico (que o deixaria irritado o suficiente para vencer a discussão).

– Se você escolher – disse Iran, agora de olhos abertos e atentos – ficar mais agressivo, vou fazer a mesma coisa. Vou regular isso no máximo e você vai ter uma discussão que fará cada briguinha que tivemos até agora parecer coisa de criança. Vai, escolhe isso pra ver; tenta. – Ela se levantou rapidamente, saltando sobre o console de seu próprio sintetizador de ânimo e parou, encarando-o, esperando.

Ele suspirou, vencido pela ameaça.

– Vou escolher o que estiver na minha agenda de hoje. – Examinando a programação para 3 de janeiro de 1992, viu que o mais adequado seria manter uma atitude profissional. – Se eu escolher o programa de hoje – perguntou com cautela –, você concorda em fazer o mesmo? – Ele aguardou, astuciosamente, para que ele mesmo não se decidisse até que sua esposa concordasse em seguir a sua escolha.

– Minha programação de hoje aponta uma depressão autoacusatória de seis horas – disse Iran.

Observe a sua programação do dia e, talvez, você encontre supressores e estimuladores na sua rotina, ou qualquer coisa que o valha. Não precisa ser um comprimido ou uma máquina que organize suas emoções. Quem sabe esses supressores e estimuladores não estejam nos seus programas de entretenimento prediletos. Já percebeu como os reality shows, os jornais sangrentos, os campeonatos de futebol ou as tretas do Twitter guiam as suas paixões, te fazem ter raiva, tristeza, vontade de gritar, chorar ou rir até sua barriga doer?

Se voltarmos ao livro 1984, nós encontramos outra exemplo muito bom sobre esse tipo de controle de paixões. São os Dois minutos de ódio. No livro, essa é uma prática do dia a dia, promovida pelo Estado para permitir a catarse popular direcionada. No ritual dos Dois minutos de ódio, as pessoas são agrupadas diante de uma tela que exibe discursos do traidor foragido e maior ameaça subversiva ao regime, Emmanuel Goldstein. As pessoas são instigadas a despejarem toda a sua fúria na direção dessa imagem. Isso faz com que, além de sentirem-se parte de uma coletividade, elas reforcem uma percepção maniqueísta da realidade e tenham um inimigo em comum, mesmo que fantasioso.

O protagonista nos conta como eram essas seções de Dois minutos de ódio. Se prepara, lá vem uma citação nem longa:

Como de costume, o rosto de Emmanuel Goldstein, o Inimigo do Povo, surgira na tela. Ouviram-se assobios em vários pontos da plateia. A mulher ruiva e franzina soltou um guincho em que medo e repugnância se fundiam. Goldstein era o renegado e apóstata que um dia, muito tempo antes (quanto tempo, exatamente, era coisa de que ninguém se lembrava), fora uma das figuras destacadas do Partido, quase tão importante quanto o próprio Grande Irmão, e que depois se entregara a atividades contrarrevolucionárias, fora condenado à morte e em seguida fugira misteriosamente e sumira do mapa. A programação de Dois Minutos de Ódio variava todos os dias, mas o principal personagem era sempre Goldstein. Ele era o traidor original, o primeiro conspurcador da pureza do Partido. Todos os crimes subsequentes contra o Partido, todas as perfídias, sabotagens, heresias, todos os desvios eram resultado direto de sua pregação. Desta ou daquela maneira ele continuava vivo e maquinando seus conluios: talvez em algum lugar do outro lado do mar, talvez até sob a proteção de seus benfeitores estrangeiros — era o que se dizia ocasionalmente —em algum esconderijo na própria Oceânia.

O diafragma de Winston estava contraído. Ele era incapaz de olhar para o rosto de Goldstein sem ser invadido por uma dolorosa combinação de emoções. Era um rosto judaico chupado, envolto por uma vasta lanugem de cabelo branco e munido de um pequeno cavanhaque —um rosto inteligente e apesar disso, por alguma razão, inerentemente desprezível, com uma espécie de tolice senil no longo nariz esguio, onde se equilibrava um par de óculos já perto da ponta. Parecia a cara de uma ovelha, e a voz, também, tinha uma qualidade algo ovina. Goldstein bradava seu discurso envenenado de sempre sobre as doutrinas do Partido — um discurso tão exagerado e perverso que não servia nem para enganar uma criança, e ao mesmo tempo suficientemente plausível para fazer com que o ouvinte fosse tomado pela sensação alarmada de que outras pessoas menos equilibradas do que ele próprio poderiam ser iludidas pelo que estava sendo afirmado. Goldstein atacava o Grande Irmão, denunciava a ditadura do Partido, exigia a imediata celebração da paz com a Eurásia, defendia a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa, a liberdade de reunião, a liberdade de pensamento, gritava histericamente que a revolução fora traída —e tudo isso num rápido discurso polissilábico que era uma espécie de paródia do estilo habitual dos oradores do Partido, inclusive com palavras em Novafala: mais palavras em Novafala, aliás, do que qualquer membro do Partido costumava usar na vida real. E o tempo todo, para que ninguém alimentasse uma dúvida sequer sobre a realidade encoberta pela lenga-lenga especiosa de Goldstein, por trás de sua cabeça, na teletela, desfilavam as colunas intermináveis do exército eurasiano — fileira após fileira de homens de aspecto sólido e fisionomias asiáticas desprovidas de expressão, que emergiam na superfície da tela e desapareciam, para ser substituídos por outros exatamente iguais. O rumor abafado e ritmado das botas dos soldados formava o pano de fundo para a voz de trombone de Goldstein.

Não fazia nem meio minuto que o Ódio havia começado e metade das pessoas presentes no salão já começara a emitir exclamações incontroláveis de fúria. Impossível tolerar a visão do rosto ovino repleto de empáfia na tela e o poder aterrador do exército eurasiano logo atrás. Além disso, a visão ou mesmo a ideia de Goldstein produziam automaticamente medo e ira. Ele era um objeto de ódio ainda mais constante do que a Eurásia ou a Lestásia, já que sempre que a Oceânia entrava em guerra com uma dessas potências, costumava estar em paz com a outra. O estranho, porém, era que embora Goldstein fosse odiado e desprezado por todos, embora todos os dias, e mil vezes por dia, nos palanques, nas teletelas, nos jornais, nos livros, suas teorias fossem refutadas, esmagadas, ridicularizadas, expostas ao escárnio geral como o lixo lamentável que eram, apesar disso tudo, o ritmo de crescimento de sua influência parecia nunca arrefecer. Sempre havia novos trouxas à espera de ser seduzidos por ele. Não se passava um dia sem que espiões e sabotadores agindo a seu serviço fossem desmascarados pela Polícia das Ideias. Ele era o comandante de um vasto exército nas sombras, uma rede clandestina de conspiradores dedicados à derrubada do Estado. A Confraria, esse era seu suposto nome. Também circulavam histórias sobre um livro terrível, um compêndio de todas as heresias, do qual Goldstein era o autor e que circulava clandestinamente aqui e ali. Um livro sem título. Quando queriam referir-se a ele, as pessoas diziam apenas o livro. Mas só se tomava conhecimento dessas coisas por intermédio de boatos imprecisos. Nem a Confraria nem o livro eram assuntos que um membro comum do Partido estivesse inclinado a mencionar se pudesse evitá-lo.

Em seu segundo minuto, o Ódio virou desvario. As pessoas pulavam em seus lugares, gritando com toda a força de seus pulmões no esforço de afogar a exasperante voz estentórea que saía da tela. A mulher esguia e ruiva adquirira uma tonalidade rosa-vivo, e sua boca se abria e se fechava como a boca de um peixe fora d’água. Mesmo o rosto severo de O’Brien ficara rubro. Ele estava sentado muito ereto na cadeira; seu peito vigoroso estufava e estremecia como se estivesse enfrentando uma vaga. A garota de cabelo escuro sentada atrás de Winston começara a gritar “Porco! Porco! Porco!”, e de repente apanhou um pesado dicionário de Novafala e arremessou-o contra a tela. O livro bateu no nariz de Goldstein e despencou: a voz, inexorável, prosseguia. Num momento de lucidez, Winston constatou estar berrando junto com os outros e percebeu que golpeava violentamente a trave de sua cadeira com os calcanhares. O mais horrível dos Dois Minutos de Ódio não era o fato de a pessoa ser obrigada a desempenhar um papel, mas de ser impossível manter-se à margem. Depois de trinta segundos, já não era preciso fingir. Um êxtase horrendo de medo e sentimento de vingança, um desejo de matar, de torturar, de afundar rostos com uma marreta, parecia circular pela plateia inteira como uma corrente elétrica, transformando as pessoas, mesmo contra sua vontade, em malucos a berrar, rostos deformados pela fúria. Mesmo assim, a raiva que as pessoas sentiam era uma emoção abstrata, sem direção, que podia ser transferida de um objeto para outro como a chama de um maçarico. Assim, em determinado instante a fúria de Winston não estava nem um pouco voltada contra Goldstein, mas, ao contrário, visava o Grande Irmão, o Partido e a Polícia das Ideias; e nesses momentos seu coração se solidarizava com o herege solitário e ridicularizado que aparecia na tela, único guardião da verdade e da saúde mental num mundo de mentiras. Isso não o impedia de, no instante seguinte, irmanar-se àqueles que o cercavam; quando isso acontecia, tudo o que era dito a respeito de Goldstein lhe parecia verdadeiro. Nesses momentos, sua repulsa secreta pelo Grande Irmão se transformava em veneração, e o Grande Irmão adquiria uma estatura monumental, transformava-se num protetor destemido, firme feito rocha para enfrentar as hordas da Ásia, e Goldstein, a despeito de seu isolamento, de sua vulnerabilidade e da incerteza que cercava inclusive sua existência, virava um mago sinistro, capaz de destruir a estrutura da civilização com o mero poder de sua voz.

Acho que eu me compliquei um pouco aqui. Não sei bem como terminar esse episódio. Vou tentar não me esquecer de que as brincadeiras mais agressivas devem acontecer em ambientes controlados e somente com quem conheça as palavras-chave pra que ninguém saia mais machucado do que deseja. É mesmo muito parecido com as brincadeiras de filhotes de gatos, gatos grandes ou pequenos. Os arranhões e rosnados divertem e ensinam, contanto que haja a supervisão de adultos e todo mundo possa encher a pança e tirar um cochilo depois.

Encerramento

Taí! Encerrando mais um Não Pod Chorar. Gostou? Não gostou? Fala com a gente. Você pode entrar em contato com a gente através do e-mail naopodtocar@gmail.com, ou dos nossos perfis pessoais e oficiais, que estão todos linkados na descrição deste episódio, em notamanuscrita.com.

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Por hoje é isso, se nada der muito errado, semana que vem, a gente tá de volta. Valeu! Falou!

Comentados

– [livro] “1984”, de George Orwell;

– [livro] Trilogia “O Ceifador”, de Neal Shusterman;

– [livro] Androides sonham como ovelhas elétricas?, de Philipp K. Dick;

– [livro] Admirável mundo novo, de Aldous Huxley;

– [podcast] Não Pod Chorar 10: Como Não Confundir Puritanismo com “Politicamente Correto”;

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