NOTAS – Indústria Cultural, Capitalismo e Legitimação

"The Artist", Michel Hazanavicius, France | Belgium | USA, 2011, '100.

“The Artist”, Michel Hazanavicius, France | Belgium | USA, 2011, ‘100.

MARTÍN-BARBERO, Jesus. Indústria Cultural, Capitalismo e Legitimação. In: Dos meios as mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997, p. 63-89.

Caderno de Anotações, 02.04.2013, p. 001.

– Boa parte das reflexões de Adorno em estética desembocam numa crítica ao “declínio da arte em cultura” (p. 68) [agora penso que o cerne dessa crítica deveria se desviar para a espécie de cultura advinda dos avanços da arte e da técnica e que a cultura gerada pela produção e uso de informação “imaterial” geraria outra espécie de cultura]

– Se, por um lado, a arte decai em cultura, por outro, essa expansão das artes “menores” parece indicar uma frustração das massas diante de uma arte espiritualizada (historicizada e elitizada). Ambos os pontos passam pela crítica de Adorno, as artes menores e a elitizada. [bom lembrar que tal crítica se fazia numa época em que o fascínio pela imagem cinematográfica e o improviso na música eram aspectos diretamente vinculados ao gosto das massas].

– Adorno faz o pedido pelo apagamento do prazer como objetivo da arte, pois é no objetivar o prazer que essa arte menor reduz-se a diversão e torna-se uma ferramenta da indústria cultural. Adorno parece enxergar as convergências dos sentidos entregues ao modo de fazer popular (jazz, rock’n roll) com os sentidos guardados no fazer erudito como algo degradante (pastiche). Martín-Barbero aponta essa posição como uma limitação do autor para pensar “as contradições cotidianas que fazem a existência das massas nem seus modos de produção de sentido e de articulação no simbólico.” (p. 71)

– A Escola de Frankfurt criticava Benjamin por construir uma lógica (método) radical para seu pensamento, oposto a simples dialética. Pensar a partir da experiência é o ponto central desse método e o mais criticado por Adorno e Habermas (p. 72-73), mas aparentemente esse modo de raciocínio consegue tocar na existência das massas e compreender o que as atinge e o que vem delas.

– A confusão a volta do sentido de aura é uma das consequências do tratamento dispensado ao autor. A quebra da aura não é a morte da arte, mas sim fala das consequências da relação de indivíduos (e da massa) com objetos destituídos do sentido de “unicidade-original” [M.B. não usa esses termos].

– Esse “novo sensorium” se materializaria nas novas técnicas, principalmente na fotografia e no cinema. A experiência com o cinema modifica o modo de experienciar todo o restante do quotidiano.

– Não há visão de otimismo progressista em Benjamin, pois não é seu objetivo pensar o “avanço social”, apenas identificar as novas relações decorrentes dos novos processos de construção de “valores”. “A operação de aproximação faz entrar em declínio o velho modo de recepção, que correspondia ao valor ‘cultural’ da obra, e a passagem para outro que faz primar seu valor expositivo.” (p. 76).

– Partindo de Baudelaire, Benjamin faz emergir elementos da experiência das massas na cidade: (i) as conspirações de taberna, refúgio que emana um projeto surdo da massa, (ii) os pistas, ou o apagamento dos rastros do indivíduo na cidade, que leva tanto a concepção burguesa do “interior” como asilo onde se mantém o domínio do individual, quanto táticas de vigilância e investigação e (iii) a experiência da multidão, quando não se identifica mais a multidão, simplesmente se é multidão.

– Entende-se que a indicação da condição “do popular”, gerada na massa pelos novos meios de perceber o mundo, provindos da técnica ao apagar a aura do objeto, seja oposta a ao estudo da situação social “achatada” por Adorno na relação “Estado totalitário/indivíduo”, porém, M.B. assume um tom por demais ativista que cheira a “crença” na geração de conhecimento [confunde conhecimento com cultura?] sem presença do indivíduo, um conhecimento identificado magicamente pela massa [não considera que quem identifica esse conhecimento seja um sujeito “destacado”].

Caderno de Anotações, 04.04.2013, p. 005.

Da Crítica à Crise

O pensamento a respeito da indústria cultural iniciado por Adorno e Horkheimer encontra continuidade nas ideias de Edgar Morin, no anos 1960, então sob a designação de cultura de massa. Apesar das críticas recebidas de Pierre Bourdieu e de J.C. Passeron, podemos encontrar chão firme em muitas contribuições de Morin. Dentro da afirmação de que a “’indústria cultural’ passava a significar o conjunto de mecanismos e operações através dos quais a criação cultural se transforma em produção” encontramos a indicação de que produtos mecanizados e padronizados podem ser entendidos como frutos da tensão criadora. (p. 81).

Morin desenvolve a análise da cultura de massa em 02 direções: (i) a estrutura semântica e (ii) os modos de inscrição no quotidiano. Na análise da estrutura básica de funcionamento da indústria cultural (“A fusão dos dois espaços que a ideologia diz manter separados, isto é, o da imaginação e o do imaginário ficcional”) encontra-se no romance de folhetim como aquele que inicia o uso da linguagem informática para passar conteúdo de uma ficção do quotidiano. (p. 82) [voltar a esse ponto]

No segundo ponto vemos a indústria cultural como o conjunto de dispositivos que fazem a verdadeira mediação entre o imaginário e o quotidiano. Nesse ponto fala-se da criação de “heróis” [ícones, exemplos, figuras e objetos-fatos célebres] para sanar a sede de uma mitologia do quotidiano.

"The Congress", Ari Folman,  Israel | Germany | Poland | Luxembourg | Belgium | France, 2013, '122

“The Congress”, Ari Folman, Israel | Germany | Poland | Luxembourg | Belgium | France, 2013, ‘122

Em “O espírito do tempo II”, Morin põe as claras a crise a que se chega nos anos 1960 com a emergência de todo “marginal” cultural numa estrutura que não da conta do sentido social. Pede-se por uma redescoberta do Acontecimento, isto é, a arte moderna, separada da vida, não diz algo para esse pedido, que é respondido pelos movimentos de contracultura. (p. 83-84).

Caderno de Anotações, 05.04.2014, p. 006.

No exemplo do autor, os Situacionistas trazem a discussão do poder de legitimação histórica para o tempo quotidiano. Com a teorização da “sociedade do espetáculo” entende-se que a mercantilização da intimidade politiza até mesmo o sexo, colocando o íntimo como espaço de luta pelo poder. Aqui nos encontramos com a teoria da governamentabilidade de Foucault, que M.B. utiliza para retificar sua tese de que a posse do poder pela indústria cultural nega legitimidade as práticas oriundas do dito “centro” e achata as discussões sociais sob a indicação de conflito de classe. (p. 84-85).

Uma das consequências apontadas pelo autor, da avalanche da informação simulada (ou da informação e da simulação) é a produção de uma massa informatizada e destituída da condição social. [M.B. traz Baudrillard quando fala dessa destruição do social. Mais uma vez me parece que as portas abertas por Baudrillard continuam encostadas. O sentido de simulacro no filósofo não pode ser apenas o de criação de uma realidade cenário que substitui o real, como no exemplo da televisão. Essa visão inocente não combina com a ideia de simulacro como uma produção provinda de uma natureza diversa, ou mesmo negadora, de sua natureza produto, isto é, cópia sem original] (p. 85-86).

A queda do povo, ou do social, em massa, não poderia, para Baudrillard, ser modificada sem que se eliminasse a própria massa, pois é de seu modo de ser o silêncio social. O predomínio e avanço das massas representa a morte do político. (p. 86) “A informação generalizada reduzindo os problemas políticos a problemas técnicos…” (p. 87) Sob o nome de Habermas, o autor sugere que não seria bem uma morte do político, mas uma substituição da razão política pela razão informática. Para Habermas isso significaria uma transformação qualitativa que indicaria ou mesmo exigiria/permitiria a formação de uma nova subjetividade, com a cultura como campo de conflito (último?) político. (p. 88).

M.B. encerra o capítulo apontando para o conflito entre essa economia da racionalidade e da compartimentação de interesses e uma cultura da experiência individual como valor supremo. Dito isso, questiona-se a respeito de uma possível ruptura entre a situação cultural de fuga para o EU e o caminho para o corte dos direitos sociais, que a civilização ocidental parece tomar. (p. 89)

[essa ideia de corte dos direitos é uma pressuposição falsa, pois encobre o desejo de que houvesse caminho “santo” para a civilização; esquece ou desconhece bases como a capacidade individual de construção e estruturação dos próprios domínios, que é onde vigora o direito]

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