Amo Muito Tudo Misto

Mike Kelley, “Ahh..Youth”, 1991. 8 Fotografias de 60x45,7cm, Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.

Mike Kelley, “Ahh..Youth”, 1991. 8 Fotografias de 60×45,7cm, Museum Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.

 

Eu defendo as condições naturais de tudo. Nessa defesa, incluo a condição natural da Natureza, que é de se transformar, de mudar. É natural ser uma coisa pela manhã, outra a tarde e outra a noite. Mais que isso, é natural ser manhã, tarde e noite ao mesmo tempo.

Também defendo as condições antinaturais de tudo. É natural assimilar o que lhe é estranho. Nascemos sem linguagem e esse é nosso primeiro advento técnico. A linguagem é antinatural. Misturamos-nos com ela para nos dizermos humanos. Misturamos-nos com tudo o que há de estranho para nos dizermos humanos. Somos naturais e artificiais ao mesmo tempo.

Ser instável é a maneira inevitável de viver entre as coisas. Ser emocionalmente instável é a maneira inevitável e viver entre as pessoas. Correr em direção à estabilidade, à purificação ou às origens é brigar com todas as partículas ao seu redor. Tente ficar parado enquanto o mundo todo continua a nadar e você se tornará adubo marinho. Mesmo nessa condição, o fixador dos seus cabelos e o glutamato monossódico nas suas entranhas irão desmentir seu retorno ao pó.

Matthew Barney, “The Loughton Candidate”, em Cremaster 4, 1994.

Matthew Barney, “The Loughton Candidate”, em Cremaster 4, 1994.

Hoje, em 2049 (quase 2050), algumas palavras que vocês usam já não mais existem. Outras palavras, que vocês não compreenderiam, são mais comuns. Algumas de nossas crianças, durante os estudos de História, ficam estarrecidas ao saberem que, um dia, foi necessário que pessoas sem representação criassem “ismos” para exigir tratamento minimamente digno ao caminharem pelas ruas.

Talvez vocês ainda não possam compreender porque, em nossas bibliotecas, nós dispomos lado a lado os livros sobre o holocausto, sobre a escravidão e sobre o machismo. É provável que vocês não compreendam ainda as razões pelas quais não falamos mais em Homem e Mulher. Demorou um bom tempo, mas enfim ficou nítido, para todos, que cada um tem o seu próprio gênero. Aos poucos, preferimos gastar nossos esforços com outras preocupações além da vida sexual e sentimental do próximo. Vocês podem não acreditar, mas isso simplificou bastante a resolução de problemas graves, como violência, corrupção, fome, doenças e pobreza.

Matthew Barney, “The Order”, em Cremaster, Cycle 3, 2002.

Matthew Barney, “The Order”, em Cremaster, Cycle 3, 2002.

Outra descrença provavelmente apareça com relação à velocidade dessas mudanças. 2050 parece tão perto quanto fazemos um comparativo entre Hoje e a época em que a maioria das pessoas pensava que não era travesti. Parece pouco tempo. Mas, não se engane. Essa descrença se dá porque, às vezes, você finge escutar uma pessoa que grita ao microfone e ignorar os milhões que cochicham de todos os lados. No fundo você sabe. Você já ouviu os murmúrios. Você já percebeu o que acontece. Uma onda negra cobriu de sorrisos vastas terras e lhe ensinou, com paciência e alguns tapas, que você deveria sentir vergonha por ser Homem. E você sentiu.

Quando você sentiu isso, o mundo de hoje começou a existir.

Algumas vezes a alunada me pergunta em que momento eu soube que o mundo estava na tábua da beirada de ser um lugar melhor. É difícil estabelecer datas e foram tantos, mas tantos fatos seguidos, que recortar grandes acontecimentos não me é possível. Para não deixar ninguém sem resposta, recordo um dia em que passei por diversos jovens, em diversos pontos da cidade. Nada havia de comum entre eles, fora a camisa, que exibia uma frase, a qual se tornaria meu lema: amo muito tudo misto!

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