Eu não vi, eu não estava lá

Em algum ponto da história, coisas ruins começaram a acontecer. Coisas ruins começaram a acontecer com quase todas as pessoas a minha volta. Gostaria de saber como o mundo chegou a esse ponto, mas me perco nas memórias.

Hoje, parece normal que tenham fechado todas as universidades, mas eu me lembre que estudei em uma delas. Parece normal que nós negros não possamos sair de “nossos” bairros, mas eu me lembro de discutir com um amigo que não gostava de encontrar jovens “desse tipo” dentro do shopping. Hoje, parece muito razoável a pilha de corpos daqueles que pulam o muro no desespero por comida, mas eu me lembro de quando diziam, nos vídeos, que só não trabalhava quem era vagabundo. Parece inquestionável, agora, que seja certo amputar a língua das mulheres e vende-las para os que podem pagar, para serem engravidadas pelos que comprovam terem os melhores genes ($).

Eu me lembro, vagamente, que nós usávamos a internet para alguma coisa além de ouvir sermões. Eu me lembro de ligar a tela do celular e ver alguma coisa além das mensagens piscantes de “bom dia”. Eu me lembro muito vagamente. Eu estou quase certo de que havia alguns supermercados que não se chamavam Wal-Mart. E eu praticamente não tenho dúvidas de que um dia eu tomei cerveja, por mais que o Mestre já tenha explicado que isso era só uma fantasia antiga.

Quando eu forço a cabeça, tenho quase certeza de que um dia eu não fui escravo, de que o Dono era obrigado, por alguma razão, a me repassar dinheiro. Mas, tenho receio de que esteja meio louco. Não há qualquer sinal disso tudo por aí.

Em alguns momentos arriscados, pouco antes de dormir, eu deixo a mente seguir essas fantasias, por mais absurdas que pareçam. Ontem mesmo, pensei nos dias em que ouvi a palavra proibida. Fiquei com medo de pensar, mas já havia pensado.

Fiquei com medo. Que ninguém me ouvisse no caso de falar durante o sono! Eu pensei também em cenas vagas, em assistir televisão, no dia em que entrei no banco e me disseram que era impossível que eu tivesse uma conta, no dia em queimaram uma avenida inteira de pessoas para que não se espalhasse “a doença”, no dia em que as viagens de avião passaram a serem feitas por convite, no dia em que me retiraram de minha casa e me transferiram aqui pro dormitório 104E, pensei no dia em que meus sobrinhos voltaram para casa com o Manual Escolar, pensei no dia em que apanhei dos vigilantes por dizer que “democracia” e “política” não eram ficção, no dia em que fui ao cinema e haviam cancelado a sessão sem explicar porque, no dia em que ouvi uma música de uma moça que dançava feliz, antes do som parar de repente, pensei no dia em que eu terminei de ler o último livro e no dia em que abracei Chewie, meu cachorro, pela última vez.

Bom, se essas coisas realmente aconteceram, eu não tenho como saber. Se essas cosias realmente aconteceram, eu não poderia ter feito nada. Eu não vi, eu não estava lá.

Maria Agélica Pedroni, “Meu Problema . My Problem“, 2017.

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