[crônica] Das janelas que abrimos

Janela. Pedronis

Família Faé Pedroni. Fotografia de arquivo, 1979-2003. Montagem e tratamento digital, Fabiana Pedroni, Fotos analógicas entre 1979 e 2003.

Crônica de Fabiana Pedroni

 

Eu queria fazer pipoca de parafusos. Esse estranho pensamento me levou a procurar o improvável. Era uma memória arredia, uma memória do corpo que não se via nem silhueta, do corpo que só sentia a respiração em vento.

Algumas situações podem nos fazer perceber e sentir o próprio corpo de um jeito diferente. Uma pessoa tímida pode se sentir mais baixa, de ombros curvados, quando está no meio de muitos desconhecidos, por mais que sua coluna esteja perfeitamente ereta. Uma pessoa elétrica pode se sentir mais veloz quando está entre pessoas mais lentas, por mais que seu caminhar seja o esperado para uma tarde de domingo preguiçoso. Hoje, meu corpo amanheceu sufocantemente vazio, por mais que esteja cheio e cansado.

Eu decidi abri um diário antigo, que é um álbum de mim mesma.

O aprisionamento pode nos levar a buscar o arredio, aquilo que foge antes de nos aproximarmos. Quanto mais presos nos sentimos, mais nos arriscamos a situações duvidosas. Quero me completar com memórias arredias.

O perigo da nostalgia estava presente no primeiro bocejo do dia. Os anos que se acumulam viraram uma jornada mais longa e improvável que parafusos pipocados. Da nostalgia, o vocábulo “nostos” me chama para voltar para casa, mas não sem a dor do grego “algos“. O conflito de dor e resistência invade como um primeiro preenchimento. “Sou sincera, se eu morrer amanhã, não tenho medo porque sou mulher e carrego a dor por dentro” (Lido Pimienta, Nada).

Por onde somem suas memórias? É no trabalho exaustivo, no varrer da casa lameada, na rotina, no hábito não habitado? Minhas memórias me abandonam a cada dia não percebido. Mas elas voltam, intensas e pulsantes, a cada planta regada, a cada abraço imaginado, a cada tocar na janela.

São pelas janelas que meu corpo de memória ganha silhueta. Janelas que já presenciaram um beijo da manhã, um nascer do sol e já foram apoio de braços cansados de saudade. Quem nunca se apoiou na janela para esperar por alguém? Janelas que já foram metáforas para o amanhã, para o ver além, para a ilusão e desilusão. Janelas que já serviram de portas, já ajudaram crianças a brincar, a pular, já machucaram, já quebraram.

Para que servem as janelas? Parece ser uma pergunta muito tola para tanta história. Quando acordei, a janela foi sinal de esperança e foi angústia do encontro. São vários Eus que ali se debruçaram, que esperaram, que deixaram. São vários Outros que compõem a história do que hoje me preenche. Tente encontrar sua janela, aquela que te deixa respirar em confinamento. Encontre e sente-se comigo para uma partilha de vontades de pipoca de parafusos.

“Querida Su Cancan, não sei quando receberá esta carta. Quando eu era pequena, queria crescer mais rápido. Assim como nos dramas e nos livros, queria me tornar a atriz principal e salvar o mundo. Mas eu cresci e percebi que sou apenas uma menina comum. Porém, ser comum não faz os jovens perderem seu brilho.

Gosto de ouvir músicas. Se você comparar a juventude com a música, verá que algumas canções são rápidas. Algumas são lentas. Algumas são pop. Algumas são clássicas. Algumas estão no topo da lista. Ninguém liga pra algumas. Mas acho que não importa o tipo ou a melodia, quando as cantamos, alguém será tocado por elas e vai tirar força delas.

Estamos correndo contra o tempo na vida. Quantas vezes trincamos os dentes querendo comer mais rápido? Queríamos poder controlar o tempo para ver quem ficou pelo caminho e a juventude que perdemos. Nessa corrida, vamos perdendo aos poucos a nossa força, caímos na pista e choramos feito crianças.

Espere um pouco. Espere um pouco mais. Vamos apreciar mais, aceitar e brilhar novamente. Nos últimos anos, a vida teve tantos momentos. Momentos felizes. Momentos tocantes. Momentos juntos. Esses momentos sempre existiram. E tivemos momentos de choro. Momentos difíceis. Momentos de separação. Esses momentos não passaram rápido.

Minha querida, não importa o momento em que você esteja, quando olhar para trás, ele já terá passado. Então seja corajosa. Dê um passo à frente. Talvez o que mais fascine você não seja a juventude em si, mas tudo o que aconteceu naquele pouco tempo e aquela memória cintilante que ficará para sempre em nossos corações”.

Discurso de Su Cancan aos 28 anos para a Su Cancan da adolescência, no dorama chinês “Minha juventude” (等等啊我的青春).

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