Costura entrenós

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Costuramos um tempo que talvez nunca tenha existido. Uma costura poética que não sai da agulha, nem perpassa o tecido. Ação que invade em massa de cor e aponta o que há de mais significativo entre nós: a existência do outro. O embate entre nossa possível existência é desvelada pelos nós que intrincam as linhas.

O nó, tão discreto, perde-se na massa de azul e eximi-se de seu papel mediador. Os milhares de nós tecidos pelas mãos do outro, tornados tapetes de Tabriz ou de Isfahan, encontram estas outras centenas numa linha imaginária. Uma relação de afeto por aquilo [ou aquele] que não se conhece, mas que se torna imagem de uma memória criada.

Quem nunca teve um objeto valioso, de procedência das mãos de outro, e por meio dele sentiu-se íntimo? Ainda guardo um bilhete perdido entre as páginas de um livro. Um bilhete que a mim não se destinava. Objeto de outra pessoa, de um nome curioso que não é o meu, mas a mim pertence.

Criamos personagens que nos acompanham, que tecem uma história real da inverdade. Vejo que cada coisa ganha uma personalidade indispensável. É essa tessitura que complementa a carne do mundo. É o mundo que se particulariza para tramar misturas fortes frente à faca do destino e frágeis sob as mãos do tempo.

Há quem diga que nós existem para serem desatados. Prefiro pensar que as linhas aparecem para serem amarradas. Como o aperto de escolhas e encontros, os nós prendem pontos das lembranças e interrompem o correr da rotina diversas vezes durante o dia. Como contas de um terço resado em incorruptível fé, os nós são a força de sentimentos aderidos em coisas vivas e mortas.

A vida que é captada numa performance inevitável. O som em texto ritornélico que sai deste objeto útil tornado memória, toma o nó como ponto central de uma narrativa que se autoconstrói. Não há previsões nem grandes amarras de leitura. A voz e as linhas tecem, juntas, um possível encontro. Um caminho para o Outro.

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entrenós. Fabiana Pedroni; Marcus Neves. In: CaminhosParaOutro – exposição coletiva na Artéria, Espaço Transitório de Arte. Vitória, 2013.

entrenós arquivo sonoro

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Um pensamento sobre “Costura entrenós

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