A madamezinha

"Mergulho Individual", 2015

“Mergulho Individual”, 2015

Por que ela queria ficar quieta, por que ela escolheu a mesa mais escondida, a cadeira submersa na penumbra e por que recusou o prato do dia, concordou com o garçom quando este a chamou de madamezinha. Era um daqueles dias em que a face denuncia uma desculpa. Talvez suas escolhas fossem norteadas por uma aversão ao local ligeiramente sujo, por causa das pessoas de feições extremamente simpáticas, pela agonia sentida a metros de distância de uma possível recepção tão calorosa e conflitante com o sentimento de invisibilidade. O que ela poderia fazer? Focar na sombra e correr até ela. Madamezinha… a expressão parecia ainda ressoar nos cantos dos lábios que custavam a prender um sorriso. Não que ela não fosse capaz de sorrir, o garçom sabia disso, já que cada “obrigada” era seguido de um largo sorriso educado – o que confirmava ainda mais o seu novo título. Recusar uma feijoada barata e completa com “orelha e tudo o mais de porco” parecia mesmo um luxo. Claro, quando ela perguntou se tinha orelhas na feijoada, o garçom já sabia que qualquer prato que lhe servisse viria com salada. “Com salada?” – sorriso de madamezinha: “sim, por favor”.

Assim que o garçom virou as costas, vi a madamezinha mergulhar em pensamentos olhando para um estranho azulejo a sua frente. Uma enorme varanda para a rua, para a gostosa movimentação de inverno, e ela preferiu o azulejo. Eu só conseguia pensar em azulejo torto, que era o caso, mas ela sorria para aquela peça destoante das demais. Acredito que o colocaram recentemente, depois de algum incidente, porque era o único azulejo novo. Era mais estranho por ser novo e limpo que por não seguir nenhuma lógica arquitetônica/geométrica. Nem sei ao certo se podemos considera-lo um azulejo, já que ele tinha quase que uma barriga. Mas era um fato, ela estava encantada pelo azulejo. Ou no que ele disparava em seus pensamentos e memória.

Vê-la sorrir para o azulejo me fez entender porque ela não considerou o título como um insulto. Se tivesse se revoltado, já que estamos em tempos de ódio e revoltas (como se tempos nem existissem), não teria recebido seu franguinho com salada tão rapidamente, e nem mesmo teria o sorriso de despedida do garçom. Ela só queria ficar quieta, a sós com o azulejo, mas gentilezas certamente estão em outro nível de relação. Dizer “obrigada” não implica em estar disposta a acolher o louco senhor que se sentou ao lado da minha mesa e que insistia em falar de sua longa vida, de como saiu da pequena cidade com menos de 20 famílias (porque lá não se fala em habitantes), para o centro de uma grande metrópole… centro movimentado e odoroso, cheio de surpresas a cada sorriso dado e mal acolhido. O silêncio acolhedor que a madamezinha desfrutou a pouco, com o senhor azulejo, é raro de encontrar. Agora mesmo, sentada na plataforma da estação de metrô, deixando tudo e todos passarem sem tomar um destino, ouvindo vozes e ruídos misturados, observo de longe a madamezinha e não há silêncio mais gostoso do que o livre observar.

Pausa para o choro da criança. Elas sempre nos despertam desse sentido disperso. “Qual o problema?”, perguntou a mãe ao bebê. Eu também adoraria saber qual é o problema. É assim que se toma um rumo, quando o silêncio nos deixa.

“Tchau, madamezinha” – e lhe dou um sorriso reverencial. “Tchau” – ela me responde, com um comprimento leve com a cabeça e um pequeno sorriso confuso. Mas ela já tinha aceitado o título.

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