[resenha] Siete llaves para valorar las historias infantiles, parte 1

Resenha. Siete llaves para valorar las historias infantiles. Teresa Colomer.

Imagem de capa. Livro “Siete llaves para valorar las historias infantiles”, organizado por Teresa Colomer.

Resenha escrita por Fabiana Pedroni.

Referência completa do livro resenhado: COLOMER, Teresa (org.). Siete llaves para valorar las historias infantiles. Madrid:Fundación Germán Sánchez Ruipérez, 2002.

Uma prateleira cheia de livros infantis! Alguns com capas coloridas de cores fortes, outros de cores aquareladas, outros quase em preto em branco. Nessa mesma prateleira, há livros em que você passa a página da esquerda para a direita, outros que seguem sequências ímpares, outros que você sacode. Há outros, ainda, que você precisa cheirar para ler! Como escolher um livro infantil dentre tantos? Como saber se o livro que você tem em mãos possui valor a partir de uma perspectiva literária? Que critérios um mediador da leitura infantil deverá considerar para a escolha de um livro?

Para responder a estas perguntas, podemos recorrer à sete chaves guardadas em um livro organizado por Teresa Colomer, o “Siete llaves para valorar las historias infantiles” (Sete chaves para avaliar histórias infantis). Este livro surgiu de um seminário da Fundación Germán Sánchez Ruipérez para apreciar e discutir critérios valorativos da literatura infantil.

Cada uma das sete chaves é apresentada em um capítulo. Cada capítulo elege um ponto determinado, que inunda o universo dos livros infantis, e o trabalha com análises desses pontos em publicações específicas. Na introdução, explica-se o processo metodológico adotado no trabalho das obras literárias, que não são consideradas por completo, por mais que se compreenda o livro como um todo, um conjunto atravessado por vários elementos. No último capítulo, após abordar essas sete chaves, das quais falarei em seguida, é feita uma discussão livre de uma obra de literatura infantil completa, o livro !Qué bonito es Panamá!, de Janosch.

Essa resenha será separada em 7 partes, cada uma a trabalhar uma das chaves propostas no livro. A intenção desta divisão é tornar este material mais que uma resenha, mas um material de apoio para aqueles que querem adentrar no universo do livro infantil, seja como pesquisador, leitor, escritor, ilustrador, ou bichinho curioso.

Ao final da postagem você encontra o link para abrir a próxima chave. ❤

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Primeira chave: a relação entre texto e imagem.

Muitas vezes, quando se fala em livros infantis, principalmente aqueles destinados aos leitores iniciantes, às crianças pequenas, se fala de livros em que a imagem possui um papel relevante para aqueles que ainda não são letrados. As imagens ensinam os que não sabem ler. Não! Não vamos correr o risco de repetir erros de outras áreas, como há muito tempo no campo da história medieval se acreditou que as imagens eram destinadas aos iletrados. Sabemos muito bem que não podemos reduzir um código à seu possível caráter didático, nem a uma única funcionalidade. É certo que a presença de imagens em livros infantis assumem um papel importante para aqueles que ainda não são leitores, mas se aproximam do livro mediados por um outro leitor. Para uma criança não iniciada na leitura, as palavras são imagens. Essa presença nos faz pensar como a imagem se desenvolve em tensão com o código textual, como é esse diálogo?

É sobre este ponto que a primeira chave apresentada no livro organizado por Teresa Colomer trata. Para se avaliar, ou conferir valor a, um livro infantil, é preciso observar o trabalho do código visual e verbal, de que forma este trabalho se dá. Há três formas básicas de atuação das imagens em um livro infantil ilustrado: as imagens podem ilustrar um texto com as mesmas informações já dadas; ou as imagens podem trazer informações extras, que não são necessárias para se compreender a narrativa textual; ou as imagens trazem uma informação que não está no texto, mas que o complementa. É a este último tipo de relação que o primeiro capítulo se dedica, à integração de dois códigos distintos, o verbal e o visual.

“Livros ilustrados”. São os contos ilustrados, em que texto e imagem colaboram, juntos, para estabelecer o significado da história, de maneira que, para contar o que ali se sucede, temos que recorrer tanto ao que dizem as palavras, como ao que ‘dizem’ as ilustrações. Com a leitura de livros ilustrados, os leitores aprendem a buscar o sentido das histórias em um processo que integra dois códigos distintos. (p.20). [1]

Para que a criança descubra a relação entre estas duas linguagens, ela terá a companhia da mediação de um leitor adulto, ou de uma outra criança já iniciada na leitura.

Na verdade, a ideia de um bom livro ilustrado é que todos os elementos do livro se coloquem à serviço da história. O texto e a ilustração, como dito, mas também o formato, o fundo da página, a disposição dos elementos nela, a tipografia etc. Por isso se diz que “no livro ilustrado tudo conta” e isto é certo nas duas acepções de “contar”. (p.20).

Na recepção do livro, os elementos gráficos chegam primeiro ao leitor, sobretudo a capa e a contracapa. Não só o texto, mas também as imagens na capa, e em todo o livro, seguem uma relação propositada para revelar os acontecimentos da narrativa.

Para que se construa um trânsito de leitura que leve em consideração a relação texto e imagem, há algumas convenções que podemos perceber nos livros infantis (A sintaxe das imagens, p.24):

1. Circular da esquerda para a direita: quando em uma viagem, o personagem caminha da página da esquerda para a direita, ao se aproximar da margem direita, indica para o leitor que passe a página. Quando o personagem se volta da direita para a esquerda, isso dá um sentido de retorno. Tal estrutura cria uma dinâmica que liga uma página à outra (p.25). Essa sequência temporal pode se dar também dentro da mesma página, não só de uma para a outra. Isso ocorre ao dividir a página em quadros que indicam que cada um possui um tempo consecutivo.

livro willy01

Willy el Tímido, de Anthony Browne. Legenda da ilustração: “Willy empezó a levantar pesas y poco a poco, a lo largo de semanas y de meses, Willy fue haciéndose más grande… y más grande… y MÁS GRANDE… Y MÁS GRANDE”. [tradução: “Willy começou a levantar pesos e aos poucos, ao longo de semanas e meses, Willy foi ficando maior … e maior … e MAIOR … E MAIOR”.]

Na imagem acima, observamos a sequência temporal do exercício de Willy. Quando seu braço sai  da margem externa, o leitor reconstrói mentalmente a cena para fora do livro. Isso significa que sangrar o personagem tem função narrativa e finalidade expressiva (p.26).

Sobre esta questão, há outros dois textos aqui no site Notamanuscrita que podem auxiliar sobre como a imagem foge do convencional e nos indica uma nova narrativa. Em “Uma carta para a tese“, apresento o livro de Suzy Lee, Onda, e a forma como a personagem atravessa a dobra do livro, de uma página a outra. Este mesmo livro também é trabalhado em “O encantamento da dobra: lugares de passagem”.

Ainda sobre o deslocar dos personagens pela página, as cores, como veremos a seguir, também marcam o tempo. Na imagem de Willy, observamos seu macacão que sai de um tom rosa mais suave, à esquerda, para um vermelho vibrante, na direita, a marcar a evolução do personagem.

2. A pausa para a atenção: Na construção de um ritmo temporal da leitura, não apenas o sequenciamento das imagens e a orientação da perspectiva dos personagens é importante, mas convenciona-se recursos para um momento de pausa, em que se quer a atenção direcionada do leitor. Este recurso pode ser uma moldura na imagem, um indicativo textual, ou visual, que consiga romper uma sequência e ter a atenção do leitor. Trata-se da interrupção do ritmo temporal de desenvolvimento da história (p.27). O uso deste recurso mostra a atenção que o livro destina à recepção, ao diálogo com seu leitor.

Podemos acrescentar a este ponto citado no livro das Sete Chaves, que este recurso pode se destinar de modo distinto para a criança pequena ou para o mediador da leitura infantil, e é interessante que o faça. Para uma criança pequena um marcador textual não funciona do mesmo modo que para um adulto, como um “Pare!” em meio à uma página, seguido de uma imagem. Mas, se este mesmo “Pare!” for escrito em fonte consideravelmente maior que a do restante das palavras, a ponto de sua materialidade pictórica se destacar, ou se ainda carregar textura visual ou tátil diferenciada, ah, você, como adulto, ficaria a acariciar as letras de pelúcia e o ritmo mudaria, não? Imagine o impacto desta pausa para uma criança curiosa.

Depois desta pausa para uma observação extra-resenha, seguimos no livro com a criação do mundo de ficção (p.28). Para essa criação, os elementos gráficos podem contribuir com a apresentação dos personagens, ditar seu protagonismo, caracterizá-los, dar personalidade. As imagens também auxiliam plasticamente para a ambientação, para se definir o tom da narrativa. Por exemplo, cores vibrantes podem dizer de uma leitura enérgica, engraçada, e tons pasteis para mostrar tradição, calma, memória. Ou, às vezes, pode haver mudanças e posições contrárias, a depender da narrativa. Isso ocorre, por exemplo, quando se usa tons pastel em uma narrativa violenta. Cada recurso visual tem um intuito próprio e pontual, quando se faz uso de tons pasteis em narrativas violentas, pode ser o caso de se buscar uma amenização do impacto da violência na leitura infantil, ou algo assim.

Esses pontos apresentados no livro organizado por Teresa Colomer devem ser considerados como elementos para se julgar o valor de um livro infantil, de que forma esses elementos contribuem para um bom livro. Como um manual valorativo, é preciso analisar a cada caso. Ela seleciona para esta primeira análise dois livros infantis: Willy el tímido, de Anthony Browne, e Frederick, de Leo Lionni. Mas os pontos trabalhados podem ser pensados de forma mais extensa em outros livros. Vale dizer que este primeiro capítulo é de uma fluidez narrativa e de análise que prendem a atenção do leitor.

O capítulo tem seu fim com uma lista de problemas dos livros ilustrados (pp. 35-36):

– Pode acontecer que o texto e as ilustrações não estejam harmonizados, que um personagem principal não apareça nas imagens, apenas os secundários, ou que uma imagem de um personagem apareça muito antes de ele ser introduzido na história. Esses descompassos tornam uma edição descuidada;
– Pode ser que as ilustrações não tenham a mesma consistência que o mundo criado, o o leitor se perde e parece ter sido levado à outra história. Um personagem é apresentado no texto, mas não é possível reconhecê-lo na imagem, não se cria um diálogo, mas um distanciamento entre as duas linguagens, em que a imagem confunde o leitor;
– Pode ocorrer que as ilustrações mostrem momentos já tão bem trabalhados pelo texto, que retiram a energia da narrativa;
– Pode ser que o texto seja redundante e que a imagem ainda repita a mesma informação; para que ler, se tudo está dado na imagem?
– Pode acontecer uma discrepância entre texto e imagem, em que ambos podem ser bons, bem trabalhados, mas há uma competição entre eles, em que o ilustrador tente trabalhar sua arte independente de uma harmonia com o texto, como que a montar um portfólio;
– Pode acontecer que um livro ilustrado, por se destinar a crianças que se iniciam na leitura, não explorem sua complexidade e conteúdo.

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Voltemos apara aquela estante cheia de livros infantis: já pela capa é possível perceber que há algo ali que nos chama atenção. A narrativa se inicia antes mesmo de abrir o livro! E quando o abre, texto e imagem brincam harmonicamente, cada um dentro de sua própria linguagem.

Para acessar a próxima chave clique aqui!

Notas:

[1] Todas as citações estarão em português, traduzidas do espanhol por Fabiana Pedroni.

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